Thanos. “Em busca de poder”

Por Jim Starlin, Ron Lim, John Beatty e Tom Vincent

“Eles as usam como meras armas, ou pior, como talismãs. Eu mesmo usei a gema como um martelo, quando na verdade ela é como o bisturi de um cirurgião.”

thanos

Então lá estávamos nós no cinema, em um agora distante 2012. E após uns 50 minutos de cenas de batalha tipicamente extraídas dos quadrinhos, como não se via na telona talvez desde Superman 2, encerra-se o primeiro filme dos Vingadores. E aí, na cena pós-créditos, uma carranca roxa que pensei naquele dia ter sido feita por computação gráfica – ainda não era o Josh Brolin, mas um outro ator – se vira pra plateia e sorri.

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Um desconhecido sentado a algumas cadeiras do meu lado, provavelmente vendo meus olhos brilharem de satisfação, me pergunta:

– E aí quem é esse cara?

E, em um momento de rara economia de palavras, mas não muita felicidade na escolha delas, proferi a síntese mais didática que pude.

– Esse é o Thanos. É tipo o Darkseid da Marvel.


Após 37 (ou mais) filmes de herói que foram cometidos de lá até aqui, a DC ainda não usou o Darkseid. Parece que o veremos no Snyder Cut de 4 horas de duração.  E, nos filmes da Marvel, fomos aos poucos, a conta-gotas, sendo apresentados aos equivalentes cinematográficos das Joias do Infinito: o Cubo Cósmico, o Olho de Agamotto, a pedrinha da testa do Visão, a Joia que o Colecionador com visual de Lulu Santos perde no filme dos Guardiões da Galáxia… Com a exceção da joia do Colecionador, nos quadrinhos esses artefatos não são originalmente Joias do Infinito, mas como no cinema precisamos resumir, enxugar e juntar o que tem de melhor nas várias histórias, tá valendo.

Acho particularmente sensacional a reformulação da pedrinha da testa do Visão. É o tipo de coisa que surge fora dos quadrinhos, mas que pode ser incorporada ao cânone com louvor. Aos puristas que torcem o nariz, lamento informar que, por exemplo, a Batgirl é uma criação da série de TV do Batman dos anos 60, e a Arlequina vem do excelente desenho animado dos anos 90.


Thanos é um personagem sensacional, criado, construído e reconstruído ao longo de décadas por Jim Starlin. Que trouxe ao centro do Universo Marvel a Manopla do Infinito, mas que escreveu histórias sensacionais antes e depois da Saga do Infinito – com e sem a Manopla. Merecidamente, muito se diz sobre a contribuição de caras como Alan Moore e Frank Miller aos quadrinhos, naquele final dos anos 70, início dos 80. Mas, ao menos aqui no Brasil, fala-se muito menos de outros caras que foram igualmente revolucionários para o mainstream dos comics, e que vieram antes, como Gerry Conway, Neal Adams, Jim Steranko… e Jim Starlin.

O próprio Jim Starlin reconhece que o Darkseid dos Novos Deuses de Jack Kirby foi uma inspiração para o design cinza, roxo e mal encarado de Thanos, assim como a cadeira que Thanos usa como nave também vem dos Novos Deuses, no caso, do sem graça Metron. Mas a ideia de um vilão que amava a Morte apaixonadamente – mais do que simplesmente ser malvado ou querer riquezas -, vinha de muito antes, das aulas de psicologia, daí o nome Thanos, que flerta com o Thanatos da psicanálise.


Hoje em dia parece impossível imaginar Thanos sem associá-lo imediatamente à Manopla do Infinito. Mas Thanos já tinha dado muito trabalho aos Vingadores muito antes de ter montado a Manopla pela primeira vez – o que acontece apenas em 1990, nesta “Thanos Quest”.  Quando escrevia a série do herói kree Capitão Marvel, Starlin nos traz Thanos para enfrentar Mar-vell, Rick Jones e os Vingadores pelo poder do Cubo Cósmico – que nos quadrinhos não é uma das Joias do Infinito, e sim um artefato tecnológico genuinamente inventado no nosso planeta.

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Tempos depois, Starlin reformulou consideravelmente um personagem que até então tinha sido um coadjuvante em um longo arco do Incrível Hulk: o douradinho Adam Warlock. Em uma baita e complexa saga – onde também surge pela primeira vez a Mulher mais Perigosa da Galáxia, a hoje popular Gamora -, Adam Warlock descobre que está predestinado a se tornar um vilão sanguinário level épico, e que justamente nisso reside a única esperança do universo, pois esse vilão estará à altura de enfrentar Thanos. Pois é, aí o Thanos aparece tipo aos 44 do segundo tempo deste arco de histórias, bota todo mundo no bolso e lá vamos nós para mais um mega-cross-over com os Vingadores.

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O douradinho Adam Warlock tinha uma gema na testa. Até aí nada demais. Um monte de gente nos quadrinhos tinha uma gema na testa naquela época. Dava um ar exótico. Ou oriental. Ou sombrio. Enfim, era apenas uma questão estética. O Visão tinha uma gema na testa que só servia pra soltar um laser muito de vez em quando. Uns caras cósmicos também tinham, como o Jardineiro e o Estranho (não o Dr. Estranho feiticeiro, mas um outro cara alienígena com 5 metros de altura chamado Estranho, ou Forasteiro). A gatíssima Dart, na DC, também usava gema na testa e discretas tatuagens sobre a pele de ouro marrom. Mas eram até então só enfeites. Foi nas histórias de Adam Warlock escritas por Starlin que uma gema começou a ter uma função importante: a gema de Warlock sugava almas.

Bem legal né? O cara é um herói, viaja pelo universo fazendo o bem, tirando gatinhos de árvores, e dando sopapos em caras maus. Aí depois suga a alma dos caras.

Aí, aproveitando o fato de que toda a vida de Adam Warlock era apenas um preâmbulo para o grande momento em que o enfrentaria, Thanos resolve atacar mais uma vez o Universo apoiando-se no poder da Joia Vampira do douradinho. Novamente aquele Deus-nos-acuda, chamem os Vingadores, e desta vez sobra pra ninguém menos que o Amigão da Vizinhança, o Homem-Aranha, salvar o Universo. Ao final dessa “Saga de Warlock que vira Segunda Saga de Thanos”, nosso vilão morre. E, como era regra na Marvel desse período, permaneceu morto por um bom tempo.  É inclusive como morto que surge na graphic novel “A Morte do Capitão Marvel” para receber, e honrar, seu grande inimigo na travessia para o além.

Bom estou há umas três páginas só falando sobre outras histórias. Mas acho que agora finalmente cheguei ao ponto.


Na abertura de “Thanos: em busca do Poder” encontramos nosso Titã intrigado com um novo desafio: a própria Morte, em carne e osso – quer dizer, só osso – lhe concede a missão de matar METADE dos seres sencientes do Universo. Um passatempo que decerto ela imaginara capaz de manter Thanos ocupado por milhares de anos.

Só que não.

Thanos em busca do poder missao da Morte

Apesar de ter sido derrotado no seu estrataGEMA com a Joia Vampira (huahuahua), os anos que passara falecido foram úteis para que Thanos refletisse e compreendesse melhor os poderes e possibilidades da Joia Espiritual usada por Adam Warlock. Mais ainda, ele apostava ter compreendido a real natureza daquelas pedrinhas na testa dos carinhas cósmicos da Marvel.

Thanos então sai pelo Cosmos, em busca de cada um dos seres cósmicos portadores de Joias Espirituais – até então, todas as gemas se chamavam assim, embora só a de Warlock fosse de fato “espiritual”. E os derrota um a um, não no braço, mas em ardis e diálogos sensacionais. E ao final de cada confronto, faz questão de humilhar cada um dos antigos portadores das Joias, ignorantes que compreendiam senão apenas uma minúscula fração do real poder da gema.

O Intermediário era o portador da Joia que antes pertenceu a Adam Warlock. O bárbaro mais poderoso do Universo, autodenominado Campeão, é o próximo na lista. O terceiro é o Jardineiro. O quarto, um tal de Corredor, que nunca tinha aparecido antes, e acho que nunca apareceu depois também. O quinto e o sexto, são os anciões cósmicos mais conhecidos da galera atualmente, graças àquele joguinho de celular miserável: o Colecionador e o Grão-mestre.

É Thanos quem as renomeia então como Joias do Infinito. E as une numa Manopla. Com as seis gemas, ele será invencível.

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Sem ler estas páginas das duas edições de “Thanos: Em Busca de Poder”, fica mais difícil entender as motivações de Thanos, e a sua inteligência assombrosa. Porque na Saga do Infinito propriamente dita ele já está ultramegablasterpoderoso, e tem que brigar com 359 heróis da Marvel, então não há muito tempo e espaço para sutilezas ou explicações.  Além de também ser importante para entendermos que, se não fosse Thanos, as Joias do Infinito continuariam sendo apenas pedrinhas na testa de uns caras poderosos por aí.

“Thanos: em busca de poder”, embora seja uma microsérie importante, pois afinal são em suas páginas que Thanos ressurge, renomeando e redefinindo as Joias do Infinito, é uma edição bastante rara. Apesar de serem apenas dois gibis de 52 páginas, é difícil encontrar os dois juntos por menos de R$ 100 por aí na web. As minhas revistas eu encontrei numa banca de feira livre em Bangu. E olhem só que sequer era especializada no típico combo Sabrina/Julia + Faroeste Stefania + Gibis… Era uma banca que vendia cacarecos tipo peças de liquidificador e torradeira. E tinha uns poucos gibis lá também, sei lá por quê.

Thanos em busca do poder capas

Enfim, elas estavam lá me esperando.

Axé!

  • PS: Infelizmente, nem “Em busca do Poder” nem a Saga do Infinito são desenhadas por Starlin, que apenas escreve para Ron Lim desenhar. Nada pessoal, mas gosto muito mais do traço de Starlin.
  • PS2: Assim como Star Wars, a Saga do Infinito é composta de três trilogias. A primeira, Desafio Infinito, é a que realmente interessa. A segunda e terceira, Guerra Infinita e Cruzada Infinita… bem, há uma ou outra cena legal e olhe lá. Muitos anos depois, tem a Abismo Infinito que é até legalzinha.
  • PS3: Jim Starlin tem uma fixação por um determinado tipo de cabelo, que se repete em seus personagens. É como se todos os heróis dele tivessem o cabelo igual ao do Cat-Noir.

Thanos. “Em busca de poder”

Minissérie em 2 edições. Ed. Abril jovem, 1993
Publicação original: “The Thanos Quest”. Two-issues minisséries, Marvel Comics, 1990.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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