Colocando um disco na vitrola

Então.

Por desinformação, ou displicência, ou procrastinação, ou preguiça, sei lá, o fato é que estou esses anos todos longe desse apps de música. Spotify, Deezer e que tais. Escutando música no Youtube. O que se revelou inviável recentemente, quando descobri que ele pára quando o celular vai para o meu bolso e descansa a tela.

Bom. Enfim, hoje resolvi aproveitar que sou cliente premium do Jeff, o que me dá frete grátis e uns outros trecos grátis – eu acho, não sei até quando ou qual é a pegadinha – além do básico, big data enfim. Lá fui eu instalar o app de música. Não para escutar no celular, mas para jogar na TV e poder ouvir “alto”.

E aí tá lá os podcasts, as playlists por gênero, as “do momento” etc.

Mas tem uma coisa que eu não tinha imaginado – leseira minha.

Tem os ÁLBUNS.

CARA, TEM OS ÁLBUNS!


Desde que inventaram essa coisa de MP3 que eu não sei o que é botar um disco na vitrola. Ok não é culpa do MP3. E tem a galera que nunca largou o vinil, ok. Mas convenhamos, sou um cara mediano. Um rapaz latino-americano mediano. Então, pra mim assim como pra muita gente, ouvir música passou a ser, por definição, uma coisa que rola em segundo plano. Nos fones do celular ou do computador, enquanto lavamos louça ou extorquimos planilhas. E aí me ressinto disso, tenho essa nostalgia, dos sábados de manhã – ou dos dias úteis à tarde sem aula -, em que empunhava algodão e álcool, ia limpar os discos, e colocava-os na vitrola.

Não era em segundo plano. Não era uma playlist. Se você quisesse pular uma música, implicava levantar-se e mexer no braço da vitrola e pular a faixa. Claro que fazia muito isso – apesar de preguiçoso.  Mas entre os discos de novela e as coletâneas de “greatest hits”, havia os álbuns. Onde os hits se misturavam com canções menos conhecidas, que só quem tinha o disco poderia adorar. Tinha o “lado B”. E tinha uma “proposta” que amarrava todas aquelas canções. Às vezes, né. Nos álbuns que se dão ao respeito. Seja “Dark Side of The Moon” ou “True Blue”.

De modo que foi uma experiência simples, mas arrepiante. Tinha ali no app as capas de tantos LPs que já tive, outros que só desejei. Mas havia a possibilidade reconquistada de “botar o disco pra tocar”, e simplesmente sentar no sofá, em frente a TV transformada em vitrola, e ouvir uma-faixa-após-a-outra.


A segunda parte desse episódio é engraçada também. Qual foi o primeiro álbum que botei?

Bem. Vocês sabem, esses aplicativos sempre perguntam, na hora da instalação, quais suas preferências. E ali, entre Anittas e Simarias e Pisadinhas (oi?) vamos destacando o que nos diz respeito. Barão, Police, Iron Maiden, Who, Whitesnake e por aí fui eu.

Destaquei Dua Lipa também porque estou adorando esse disco dela que tem o “tamborzinho”. Me julguem.

E aí, quando surge a minha tela “personalizada”, aparecem lá as playlists “Anos 80”, “Metal 80”, “Indie Rock” etc. Ok. Mas na lista de álbuns, qual está reluzente, à frente da fila?

https://www.encartespop.com.br/

Slippery When Wet, do Bon Jovi. O segundo disco deles que é, de fato, o primeiro para a imensa maioria da humanidade.

Que medo desses algoritmos de redes sociais! Tal qual um terapeuta sádico, superou toda minha lista de roqueiro sério e consistente e desvelou minha alma de farofa. “Slippery When Wet” foi o disco que mostrou ao mundo que o “rock podia ser sorridente”, e abriu as portas pra toda a turma do rock farofa, que veio a substituir a turma do hard rock que tocava nos comerciais do cigarro Hollywood. Pra mim, especialmente, é um disco importante.

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Foi o primeiro disco “caro” e “inesperado” que comprei – ok, antes havia já os LPs de Michael Jackson, Blitz, dIRE sTRAITS, RPM e discos de novelas, a maioria ganho de presente, lógico.  Mas naquele momento, aquele disco era apenas um lançamento obscuro, na prateleira “heavy metal” da Moto Discos de Copacabana, logo atrás de algum disco do Accept ou Black Sabbath. Ainda demoraria alguns meses para que “Never Say Goodbye” entrasse numa novela, tornasse o BomJovem conhecido por aqui – e se tornasse, em pouco tempo de overexposição, a faixa do disco a ser pulada.  Naquele momento, comprei o LP fundamentado apenas numa referência do camarada Nilsinho – “tem uma banda nova aí que vai arrebentar”.


Claro, me lembrava que “You give love a bad name” era desse disco. Mas não me lembrava que “Livin´ on a prayer” era a faixa imediatamente seguinte.  Não me lembrava também de “Wanted dead or alive” encerrando um poderoso lado A. Richie Sambora tocando muito. Rock sorridente, mas tem valor viu. Pelo menos nesse álbum e no “New Jersey”, os outros já não boto a mão no fogo…

Em seguida, fui ouvir “The Joshua Tree”. Só para me lembrar que, sim é do cacete, mas pra mim o “Rattle´n Hum” ainda é o maior disco do U2. E daí, logo depois, cheguei no “Rattle´n Hum” do Depeche Mode, o “Live 101”. Trinta anos atrás era provavelmente o melhor vinil da minha modesta coleção. Ainda hoje continua um discaço, único.

Enfim. Experimente. Coloque um disco na vitrola. E sente-se em frente a ele para apenas ouvi-lo.

Axé!

P.S.: Shot through the heart! And you’re to blame
Darlin’, you give loooove… a bad name

Photo by cottonbro on Pexels.com

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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