Por Carl Potts, Alan Zelenetz, Frank Cirocco, Terry Austin e Steve Oliff
“Soldados e mercenários, pregadores e poetas, assassinos e canalhas. Todos lutam pela Galarquia, por dinheiro, por uma causa… e pela emoção da aventura. São legionários de vida dura e morte difícil, mas leais até o maldito fim.”
Hoje em dia, após tantos filmes dos Vingadores onde os heróis são (quase) todos soldados a serviço da SHIELD, a coisa da militarização já parece muito mais trivial. Mas na época em que Legião Alien foi escrito (e na época que eu li também) parecia bastante óbvia a tentativa de “corrigir” algo que faltava, por exemplo, na tropa dos Lanternas Verdes, que não se pareciam muito com um exército. Na verdade, pareciam muito mais ordem de paladinos clérigos quase independentes, embora moralmente ligados, que obedeciam a um Conselho que intervia quando a bobagem era muito grande. Eles caprichavam na seleção: as pessoas escolhidas para receber um anel eram tão íntegras que a autonomia delas não seria um grande risco. Mas o fato é que no dia-a-dia, não havia lá tantas ordens a serem cumpridas e patentes a serem respeitadas.

Forçando um pouco, me lembro que essa “baixa militarização” é uma coisa que também aparece um pouco em Star Trek. A Enterprise é simultaneamente um instrumento de exploração científica; estabelecimento e manutenção de diplomacia; mas também e fundamentalmente uma nave de combate e patrulha em constante missão de proteção dos limites e fronteiras de Federação. Essa parte bélica não tinha ficado tão clara pra mim quando era moleque vendo os episódios na TV no início dos anos 80 – quando sequer se imaginava que poderia haver Nova Geração. Bastante tempo depois, vendo os episódios em maior variedade e com mais atenção, pude perceber que a parte científica e civilizatória tem quase o mesmo tamanho que a parte bélica – se não em tempo de tela em cada episódio, com certeza em relevância para os roteiros. Provavelmente, se tivesse visto o episódio do duelo de Kirk com o comandante Romulano ainda moleque, talvez tivesse percebido antes que a Enterprise é uma nave militar que carrega alguns cientistas, e não uma nave exploratória de diplomatas e cientistas que carrega alguns militares para segurança. Jim Kirk parece autônomo porque é indisciplinado com a hierarquia – mas ela está lá, quase o tempo todo.
A Legião Alien é explicitamente militar. É uma tropa. Mas de um tipo particular. Não é um exército de jovens convocados, ou de guerreiros patriotas. Também não é um grupo de elite de soldados profissionais muito bem treinados e equipados. Que dizer, até é também. Mas fundamentalmente a ideia aqui é dialogar com o que há de “mito romântico” da Legião Estrangeira – um lugar onde valentões, desajustados e criminosos de todo tipo podem se abrigar, sem serem julgados pelo seu passado, e, após alguns anos servindo aquela bandeira, podem seguir redimidos e começar de novo. Mas a instituição é forte a tal ponto que torna esse ajuntamento de marginais um exército poderoso, invencível, a serviço dos valores mais elevados. E, se isso não tivesse ficado claro o suficiente nas histórias publicadas na revista Epic Marvel, se torna de certo modo o núcleo da história a ser contada nesta edição especial.
A trama principal consiste em acompanhar o pelotão do Capitão Sarigar em uma operação especial típica de cinema dos anos 80 – mas que se repete aqui e ali ainda hoje em dia, como, por exemplo, no filme Esquadrão 6, da Netflix: vamos invadir um país que é uma ameaça ao mundo livre, e eliminar cirurgicamente o seu líder. No caso aqui, um planeta de ciborgues, os Tecnóides, começa a fustigar bases isoladas nas fronteiras da União Galáctica Tophanica – o império ou federação defendida pelas tropas da Legião Alien -, se tornando um incômodo. Antes que esse incômodo se torne de fato uma ameaça – que exija uma guerra ampla, por exemplo – a Legião é convocada. Missão: assassinar o líder dos Tecnóides e disseminar o caos, abrindo espaço para uma intervenção por parte das forças da UGT e tomada do poder. Ao final, a operação é bem-sucedida, e um “líder favorável à Galarquia foi empossado”.
Há ainda duas subtramas correndo junto na história. Uma, que acho pouco crível, quando os soldados enviados na missão resolvem fazer um ganho saqueando um depósito cheio de tesouros. Sim, isso tem a maior cara de sessão de RPG com players querendo enlouquecer o mestre numa sidequest sem sentido. Mas esse nem é problema. Dado que a Legião é um antro de valentões e criminosos tentando limpar o currículo, a ideia de fazer um ganho é super válida. Mas num vilarejo periférico né, não numa capital fortemente armada e vigiada. Roteirista meio que preguiçou aqui. A outra subtrama consiste na sofrência de um legionário apaixonado. Sério. Sofrência.
Mas voltemos ao núcleo que é o que interessa. Conduzem essa trama principal três personagens centrais. O capitão Sarigar, um líder admirado, estrategista militar, e também um erudito amante das artes; mas, essencialmente, um soldado sem nenhum tipo de dúvida ou hesitação em sua mente. O tenente Montroc, um jovem e rico aristocrata enviado à Legião para se “tornar homem”, idealista e cheio de princípios, que dialoga muito bem com o lado erudito do Capitão, mas tem muita dificuldade de compreender a postura “missão dada missão cumprida” de Sarigar. Como a missão do dia não é nada ética, Montroc é tomado por questionamentos essenciais – mas ao longo do episódio se revela um soldado bem treinado, apesar da origem almofadinha/mauricinho/Nutella, e fiel às ordens de seu capitão.

O terceiro personagem central é Dethron, o líder dos Tecnóides, alvo da operação. Aparece em poucas cenas, proporcionalmente, mas toda a aventura está ancorada nele, bem como o clímax da aventura. E é dos monólogos dele, e dos seus diálogos com Sarigar, que emergem os melhores recados, que nos levam à reflexões mais elevadas.
Sim porque este gibi traz uma aventura muito bem contada e divertida de ler, e uma arte muito bonita, ainda mais se lembrarmos que estamos na era anterior à colorização digital. Mas o que atrai nesta história, mesmo que hoje possa parecer ingênuo ou superficial frente a outras obras mais complexas, é que esta edição de Legião Alien traz vários questionamentos sobre esta ideia que hoje em dia chamamos de “ataque preventivo”; e também questiona alguns pontos pilares do que é, ou precisa ser, uma instituição militar. Mas tensionando sem invalidar, não há uma conclusão fácil sobre certo ou errado aqui. Pelo menos é assim eu vejo.
A ideia aqui não é contar a história – não quero estragar a leitura de vocês. Quero apenas dizer que vale a pena ler. E, se o que escrevi aqui até não pareceu muito interessante, bem, tenho um argumento mais direto e simples. O Capitão Sarigar é um baita personagem. Venha conhecê-lo.

Axé!
- PS: Sobre a arte, um detalhe que é muito mais que um detalhe: o arte finalista é o Terry Austin, que todos conhecemos intimamente após tantos milhares de páginas de John Byrne. E é impressionante como Austin torna familiar o traço de Frank Cirocco (que até aqui, neste momento, não associo a nenhuma outra obra). Em várias páginas, se vc se distrair, vai se pegar pensando que tem em mãos o Quarteto de Byrne.
- PS2: Não sei como tocar nesse assunto sem dar spoiler, então vou falar o mínimo possível. Mas me lembrei instantaneamente do clímax desta edição quando assisti a um daqueles novos Star Trek com Dr McCoy parrudo que o J.J. Abrahams cometeu – cujo clímax é bastante semelhante. Não estou dizendo que Abrahams citou esta revista – afinal o mais provável é que ele, e também Carl Potts, estejam citando algum clássico da literatura russa, que minha baixíssima erudição não permite reconhecer. Mas, na minha mente, o plot twist original sempre será de Carl Potts.
- Do mesmo jeito que, para mim, “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente” será sempre um ensinamento de Charles Xavier, e não de algum filósofo britânico do século XIX
