X-Men. “O Conflito de Uma Raça”

por Chris Claremont, Brent Anderson e Steve Oliff

“Aquelas mesmas pessoas que disseram que o Homem descendia do macaco, afirma agora que os mutantes descendem de nós. Isso quer dizer que nossos filhos são esses monstros?! Isso é natural??
Pois eu lhes digo NÃO! Jamais!”

reverendo stryker

Relendo para escrever este texto, fiquei um pouco mais mexido com a violência da primeira cena. Tem isso, né. Conforme você vai ficando mais velho, tua percepção e compreensão das coisas mudam.

Experimente pegar um texto desses da faculdade que vc sublinhou ou riscou de marca-texto fluorescente, e reler uns 10 anos depois. Vc vai se surpreender e até dar boas risadas ao perceber como partes que pareciam importantes, antes, hoje vc não destacaria, assim como também partes hoje fundamentais você passou batido.

Duas crianças, negras, correndo de assassinos trajados em uniformes militares. Sendo assassinadas em um parquinho de pracinha. Seus corpos pendurados nas correntes do balanço.

Cada frase me soou densa.

Eles tem apenas 9 e 11 anos. Correm sem saber por quê. Só sabem que suas vidas estão em perigo.

Mais adiante, a vilã responde: “Porque vocês não podem viver”.

Pra mim, parece ter se tornado mais atual e real 40 anos depois. Mas, provavelmente, é atual desde sempre.

Xmen Conflito de uma raça reverendo Stryker

“O Conflito de uma Raça” é a primeira edição no Brasil da obra-prima “God Loves, Man Kills”, escrita por Chris Claremont, desenhada por Brent Anderson e colorida por Steve Oliff.  O título foi “corrigido” nas diversas edições seguintes para a tradução literal “Deus Ama, o Homem Mata”.

Não entendo muito a razão desse ter sido o título desta primeira edição, entre outras coisas porque, muito pelo contrário, esta é uma das primeiras histórias em que os lados da “raça” mutante em conflito começam a se entender e trabalhar juntas. Talvez o título original tenha sido considerado forte “demais” para um gibi da época. Sei lá.

A história traz os X-Men tendo que enfrentar um famoso pastor “televisivo”, que destila ódio contra os mutantes mobilizando setores crescentes da opinião pública. Não bastasse isso, o Reverendo William Stryker também lidera, secretamente, uma milícia que persegue e executa mutantes. Ele então articula um ataque frontal aos X-Men em duas frentes – debates na TV com o Professor Xavier, enquanto seus “soldados” atacam – e sequestram – alguns dos X-Men.

Não vou aqui resumir a história, lógico, embora não faça muito sentido também falar de “spoiler” de uma revista de 40 anos.  O objetivo aqui sempre é acrescentar razões para que vc leia – ou releia – este “gibi”.


Uma primeira coisa que acho muito legal nesta história é que é a primeira vez que Magneto atua junto dos X-Men. Após tantos anos de gibis – e de filmes -, explorando a relação de “broderagem” amor e ódio entre Erik e Charles, isto pode parecer até surpreendente aos leitores mais novos, pois parece que “sempre foi assim”. Mas na época esse era um movimento, lento e constante, onde Claremont vinha desenvolvendo essa amizade nas histórias, e eventualmente inserindo “retcons”.

Anteriormente, aparecem momentos em que transparece a admiração de Magneto pelos integrantes dos X-Men. Por exemplo, na primeira história em que eles se enfrentam após a morte da Fênix, Erik pergunta a Scott, que na época estava “ficando” com Colleen Wing: “O que aconteceu, filho? Achei que você e Jean ficariam juntos a vida toda.” E então demonstra enorme surpresa e sincero pesar, quando Scott conta da morte de Jean.

Nesse sentido, “God Loves, Man Kills” se insere neste processo, onde um Magneto solitário e abatido busca a ajuda dos X-Men para enfrentar Stryker. Pouco tempo depois, durante as “Guerras Secretas”, Beyonder escalaria Magneto entre os heróis, para espanto e revolta de vários deles. E, a partir daí, Erik passa a fazer parte dos X-Men em vários momentos, para depois sair e se tornar novamente um rival, e depois voltar, enfim. E os X-Men também, em diversos contextos, se tornam cada vez mais próximos de Magneto – porque afinal o mundo vai ficando cada vez mais complicado. E, finalmente, poucos anos atrás, quando Scott assume a liderança da questão mutante, ele tem Charles e Erik como conselheiros quase equivalentes.


Uma segunda coisa legal é que a história toda é bastante modesta em “efeitos especiais”. Excetuando um ou outro momento com Magneto, não há exibicionismo de poderes nem combates megalomaníacos. Isso, aliado ao traço realista de Brent Anderson e as cores “mais pastéis que vibrantes” de Steve Oliff, faz com que a densidade e o peso político da trama fiquem sempre na frente. É quase como se estivéssemos assistindo X-Men no teatro, e não no cinema.

Além dessa ser uma clara opção estética e narrativa de apresentar a história de modo que a valorize, fico inferindo também se, no seu íntimo, Chris não estava tentando escrever um “filme para a televisão”. Ou ao menos dialogar com as produções da época.

Vocês que são jovens e tem menos de 50 anos não vão lembrar, mas ali no início dos anos 80, as séries de TV eram “testadas” com “episódios-piloto”, frequentemente longas-metragens. Aí depois, se desse certo, a série deslanchava, e assistíamos depois maravilhados “o filme que deu origem à série”. Naqueles anos, havia várias séries de sucesso que hoje poderiam ser consideradas como “de super-herói” – como o “Homem de Seis Milhões de Dólares”, “Manimal” ou “Supermáquina”. E havia as séries de super-herói “de fato”, como a maravilhosa “Mulher Maravilha” com a Linda Carter; o “Incrível Hulk” onde Banner sempre acabava na estrada solitário pedindo carona ao som daquela musiquinha triste; o “Homem do Fundo do Mar” que não quis pagar royalties nem pro Namor nem pro Aquaman e se apresentava como um personagem totalmente novo, o Mark Harris, “The Man from Atlantis”; e o “Homem-Aranha” mais tosco de todos os tempos, que usava um disparador de teias gigantesco em apenas um dos pulsos, e vestia um paletó com reforço nos cotovelos – era moda isso gente ?

Bem, não havia o dinheiro que há hoje para séries de TV, e sem computação gráfica tudo era muito mais caro. Então todas essas séries de herói da época tem uma coisa em comum: só o herói tem poderes. Os seus inimigos e vilões não tem poderes, porque simplesmente não há orçamento para combates épicos. Então o Hulk invariavelmente enfrentava caipiras valentões em brigas de bar ou afins; o Aranha enfrentava bandidos comuns ou, em um momento particularmente épico, NINJAS de desempenho estético altamente duvidoso. O arqui-inimigo de Mark Harris era um cientista maluco gordinho divertidíssimo e simpático.

Enfim, pra encerrar esse longo parênteses, o primeiro combate “de verdade” de super-herói que assisti foi em “Superman II”, e que continua sensacional porque efeitos especiais com maquetes e cordas envelhecem infinitamente melhor do que essas CGI de fundo verde. “God Loves, Man Kills” poderia tranquilamente ser o “filme que deu origem à série” dos X-Men naqueles 1980s: temos apenas Colossus destruindo um carro com os punhos como cena mais complicada. Magneto até levanta um vagão de metrô em certo momento, mas isso seria facilmente resolvido com maquetes.


Uma terceira coisa que me chama a atenção é o compromisso otimista e humanista que tio Chris traz na conclusão da aventura. Scott profere alguns belos discursos, e nos últimos quadrinhos fala a Magneto sobre o “sonho de Xavier”. Magneto, profeticamente, responde “Para o nosso bem, mutantes ou não, espero que vocês tenham razão. Mas, se falharem, será a minha vez”.

Principalmente, Claremont demonstra o tempo todo esperança no comportamento ético e humanista do “homem comum”, como na cena do cameraman que comenta, durante o debate:

“Acho que Xavier tem razão. Mas quem se importa. Stryker sabe usar a TV. Ele representa a gente boa, bem intencionada… É uma pena, porque o recado dele é apavorante”;

Isto também transparece nas várias participações de policiais anônimos, pessoas comuns, mas que sempre escolhem defender o lado desarmado, aparentemente mais fraco, inclusive evitando o linchamento de um enfraquecido Magneto.

Infelizmente, seja dentro dos quadrinhos, seja aqui no nosso lado de fora das páginas, tais expectativas sobre a humanidade não evoluíram tão bem.

Axé !!

PS: : O personagem Stryker tal como se apresenta nos filmes na verdade é um “mash-up” com diversos outros personagens – principalmente com o líder sem nome do projeto Arma X. Nos filmes, esse lado militar foi se tornando hegemônico ao longo do tempo, e mesmo nas aparições posteriores nos quadrinhos, Stryker já estava muito mais parecido com o militar dos filmes do que com o Reverendo original.

PS2: Tio Chris já mete aqui um “spoiler” sobre Illyana, a irmã de Colossus que mais tarde se tornará a feiticeira Magia. Em uma cena rápida, Anne, a líder da milícia, diz que ainda não matou Ilyanna porque “…suas leituras não são nem humanas nem mutantes, não sei o que fazer.

PS3: Há um interrogatório, conduzido por Logan e Erik, que é bastante impactante. Noturno pergunta: “se usarmos os métodos de nossos inimigos, o que nos torna diferentes deles?” O uso de tortura para conseguir informações, nas diversas modalidades e intensidades, é um clichê corriqueiro nos gibis, e gigantescamente problemático – desde o Demolidor espancando bandidos ralé no Bar da Rosie, até a Viúva Negra chegando com alicates e serrotes pra conversar com um prisioneiro num filme dos Vingadores – com a benção do Capitão América, inclusive. Mas isso é assunto prum outro texto, focado nisso.

PS4: Sobre Mark Harris, “The Man of Atlantis”: sempre me lembro do meu professor de Biologia, que em certo momento falou: “Essa série aí os caras fizeram certinho, porque o cara não nada do mesmo jeito que nós: ele nada como um cetáceo!!

X-Men. “O Conflito de uma Raça”

Série Graphic Novel, n. 1. Editora Abril, janeiro de 1988.
Publicação Original: “God Loves, Man Kills”. Marvel Graphic Novel #5. 1982.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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