por John Byrne, história e arte, Glynis Oliver, cores
“Incrível! É como seria a história da Terra se não tivesse ocorrido a Idade Média.”
reed richards
Na longa e clássica temporada que passou com o Quarteto, John Byrne deixou diversos legados. Reposicionou Sue Richards como pilar e liderança do grupo; amadureceu – um pouco – Johnny Storm; tripudiou um bocado do Ben Grimm; e revolucionou Jennifer Walters, a partir daí cada vez mais “sensacional”.
O que eu gosto particularmente nesta fase é a pegada ficção científica clássica, ou “retrô”. Cada história do Quarteto parece um episódio de Star Trek, ou melhor, de “Além da Imaginação”. São aventuras fechadas em si mesmas, com poucas consequências e referências cruzadas para o Universo Marvel como um todo – pelo menos até que um roteirista as aproveite e ressignifique -, mas sempre com alguma sacada genial.
Se bem que, aqui pelo menos, não é esse o caso. Byrne sabia exatamente o que queria “reposicionar” no Universo Marvel. Lá no final conversamos sobre.
Nesta aventura, vamos em busca de Nathaniel Richards, pai do Reed, que, acho eu, não tinha sido mencionado ou aparecido até então. Após esta primeira aparição, Nathaniel foi bastante utilizado por outros roteiristas posteriormente, nem sempre de modo coerente, mas enfim, é aqui que somos apresentados à ele, e à ideia de que Reed não é um filho superdotado de chocadeira, mas sim que sua genialidade e capacidade científica já vêm de longe.
No laboratório de seu pai, trancado há anos, Reed encontra um artefato idêntico à clássica “máquina do tempo” de Victor von Doom. O que é surpreendente, porque significa que Nathaniel alcançou aquele conceito anos antes de von Doom. Ou que talvez von Doom e Nathaniel trocassem figurinhas, mas isso já sou eu viajando.
Sem ter nada melhor pra fazer, o Quarteto então faz o que qualquer grupo de aventureiros centrados e cautelosos faria. Se joga na tal máquina do tempo, endereçando as mesmas coordenadas que Nathaniel teria usado quando desapareceu.

Ninguém se pergunta por que Reed demorou tantos anos pra investigar o sumiço de seu pai. Mas convenhamos, quem não procrastina assuntos delicados referentes à figura paterna que atire a primeira pedra.
Apesar da boa premissa, o núcleo da aventura infelizmente dura, proporcionalmente, poucas páginas. Nos gibis dos anos 80, os roteiristas não levavam 350 edições em cross-over pra desenvolver uma ideia e entregar algum clímax, como é hoje em dia. Mas nessas poucas páginas, vamos descobrindo aos poucos se, afinal ,eles estão em algum tipo de futuro pós-apocalíptico. Para enfim ser revelado que eles estão exatamente no mesmo tempo presente, mas de uma linha alternativa muito distante da nossa – onde provavelmente a Biblioteca de Alexandria não foi incendiada, e a “Idade das Trevas” não gerou um apagão científico de quase 1000 anos.
Ok ok, sabemos que não foi assim, afinal o mundo islâmico e o extremo oriente continuaram avançando com a ciência enquanto os europeus queimavam “bruxas” na Idade Média. Mas a ideia de um 1989 que parece tão avançado quanto seria um 2789 é boa, vai.
Quanto ao senhor Nathaniel Richards? Ah sim, ele é encontrado, e após uma mal-disfarçada tensão sobre “quem é o verdadeiro vilão da história”, tudo se resolve com uma pedrada.
Sim porque é um futuro avançado, porém pós-apocalíptico. Então é claro que pedras podem sim destruir canhões laser. Afinal, não há nada que um “sucesso decisivo” nos dados não resolva.

Axé!
- PS: Como vemos na página acima, Nathaniel tem um filho, ainda bebê, nascido nesta Terra alternativa. Mas não me lembro se este “meio-irmão” de Reed Richards foi relembrado por algum outro roteirista posteriormente. Acho que nem o enciclopédico carinha que escreveu os “Exilados” lembrou dele.
- PS2: Nesta edição #273 de “Fantastic Four” John Byrne escreve uma página final, um epilogo, onde mostra, muitos anos no futuro daquela linha do tempo, um jovem estudioso do legado científico do grande benfeitor e pacificador Nathaniel Richards. O rapaz aprende a operar a máquina do tempo de Nathaniel, indo parar em uma versão do Egito antigo. Assim, Byrne propõe aqui, sem nenhuma sutileza, que o homem (e suas várias versões) que conheceremos como Kang, o Conquistador é nascido nesta mesma linha temporal que se tornou o novo lar de Nathaniel Richards – e talvez seja até um descendente seu, parente distante do nosso Reed.

- PS3: Esse epílogo, entretanto, não foi publicado nesta edição da Abril Jovem. Não sei por que acharam melhor cortar essa ultima pagina. Então, sei que vocês não vão acreditar em mim, mas juro que peguei esta revista pra postar apenas porque gosto da sacada “futuro que na verdade é o mesmo presente, só que numa outra linha lateral”. Não fazia ideia que Byrne já tinha desde o início posicionado esta história como uma origem possível pro Kang. Descobri só agora escrevendo e fuçando na web. Sério.
- PS4: Aliás, com toda a humildade: acho que tem um problema aí nessa ideia do Byrne. Afinal, se a “máquina do tempo” do pai do Reed não viaja de fato no tempo, mas sim “lateralmente” entre diferentes versões do mesmo tempo presente, sua tecnologia não deveria ser suficiente para viabilizar as viagens do Kang. Ou entendi tudo errado?
Quarteto Fantástico. “À procura do pai de Reed Richards”
Grandes Heróis Marvel, 25. Ed. Abril jovem, 1989
Publicação original: “Fathers and others.” Fantastic Four #272 e #273 . Marvel, 1984.