Wolverine. “Arma X”

Por Barry Windsor-Smith, História e Arte

“Ele é humano, Senhor! Não diga que não consegue ver isso nos seus olhos!
Ele é um homem… Que foi transformado num monstro.”

Srta Hines


Não dá pra dizer que Wolverine é o único. Mas, certamente, de todos os personagens que se tornaram populares nesse mundo dos quadrinhos, e depois games, camisetas, lancheiras e filmes, ele é o que tem a origem mais misteriosa.

Diferentemente da maioria dos heróis, que são apresentados numa história de origem logo cedo, Wolverine surge coadjuvante, chega ao estrelato a medida que vai se tornando o mais popular do X-Men, e nem nós leitores nem os roteiristas sabíamos muito bem de onde ele veio.

Já nas primeiras histórias dos X-Men, sabíamos que ele tinha além do fator de cura e sentidos aguçados, também um esqueleto indestrutível, de adamantium. Mas não estava muito claro se aquilo era também um poder mutante, tal e qual o corpo de aço de Colossus, por exemplo.

Já não tenho tanta certeza, mas acho que a primeira vez que se apresenta o esqueleto de Logan como algo totalmente artificial é na história Dias de um Futuro Esquecido, quando o velho Logan é incinerado por um robô Sentinela. John Byrne desenha então algo muito parecido com um T-800 fumegante – mas a revista dos X-Men é anterior ao filme, ok?

Ok, ok, é só um braço. Mas juro que na minha memória aparece o esqueleto inteiro fumegante. É o mistério desta arte, né?

Outra questão eram as garras. As garras por muito tempo foram desenhadas arredondadas, como as garras de um animal. É Frank Miller quem primeiro as desenha como lâminas.

Byrne
Miller
McFarlane

Sobre o passado de Logan então nem se fala. Quando os X-Men vão parar, perdidos, no Japão, todos nos surpreendemos – ele mesmo inclusive – com o fato de Logan se sentir em casa, íntimo da cultura japonesa.

Bem mais tarde, Logan teria histórias com um novato Capitão América na Segunda Guerra, dentre outras paradas, até finalmente ter seu nascimento definido em meados do século XIX.


Barry Windsor-Smith jura que não sabia onde estava se metendo quando resolveu contar o que considerava, claro, um episódio central para a história de Wolverine – mas não que estava escrevendo um clássico instantâneo, uma origem esperada por uns 18 anos.


Parece surreal aos leitores de hoje em dia, ou aos fãs que chegaram pelos desenhos ou filmes, que simplesmente não sabíamos, não fazíamos ideia de como Logan tinha conquistado seu esqueleto de adamantium. Mesmo Logan não sabia, pois suas memórias estruturadas começavam no momento em que começara a trabalhar com Mac Hudson no Departamento H, nos primórdios da Tropa Alfa.

A maior prova de que Windsor-Smith estava, modestamente, apenas contando uma boa história, provavelmente está no fato de que ele não projetou Arma X como uma graphic novel, ou como uma saga a ser publicada num cross-over ou minissérie especial. Nada disso. Arma X foi publicada em 13 capítulos curtíssimos, de 8 páginas cada, em uma revista quinzenal chamada Marvel Comics Presents, que trazia histórias curtas, seja de “novos” heróis ou artistas, seja de grandes nomes, como é o caso desta que une Logan e Windsor-Smith.

Os capítulos sequer foram desenhados seguindo uma ordem: como explica o autor, ele foi produzindo os capítulos, tendo ideias, preenchendo e recolocando em ordem. A primeira história produzida se tornaria o quinto capítulo; e o que deveriam ser seis capítulos, treze.

A arte de Windsor-Smith parece perfeita para as necessidades desta história. O seu desenho “poluído” e “excessivamente” detalhista, que até me incomoda em outras histórias, aqui é preciso e necessário. Vemos as gotas de sangue, suor e pus em cada cena, em meio a fios e cateteres, em um laboratório que não é claro e brilhante como os outros laboratórios de gibi, mas que sempre está a meia-luz: uma meia-luz amarelada gerada indiretamente dos tantos leds e telas e sensores que parecem piscar o tempo todo.

Dr. Cornelius, Srta. Hines e o Professor

Mas se a sua arte genial ja nos é conhecida desde os primeiros arcos de Conan nos anos 70, o que é realmente surpreendente pra mim aqui é o texto de Windsor-Smith. Enxuto, modesto, preenchido de grunhidos, gemidos e silêncios de um Logan que fica 80% do tempo sedado, enquanto os outros apenas 3 personagens dialogam sobre o paciente diante deles, cobaia, animal, homem ou objeto, com intenções e (ausência de) limites éticos muito distintos.

Há ainda um quinto personagem que nunca aparece, o real comandante da operação.


O nível de sofrimento infligido a Logan fica muito claro, graças à absurda junção de arte e texto. Vemos, e deduzimos, um homem ser literalmente descarnado, seus ossos expostos, e apesar disso ele sobrevive, ele se cura. Mas não sua mente. O trauma é tamanho que a mente de Logan é resetada ao seu limite mais selvagem, ou fetal.

O que soa totalmente coerente com tudo que lemos de Logan antes e depois: suas memórias são entremamente caóticas e falhas, tudo que ele se lembra com alguma qualidade são os anos que vieram a partir do Departamento H, de onde seria recrutado por Charles Xavier para integrar os X-Men.

Muitas outras séries e arcos e histórias foram escritas depois, tentando agregar sentido e ordem à origem e a vida de Logan. Mas, desculpem-me, nenhuma delas é realmente necessária.

Tudo que precisamos saber sobre o passado do homem chamado Logan está aqui nestas 13 histórias curtas, publicadas ao longo de seis meses nos EUA, e no Brasil já reunidas de uma só vez em um do gibis formatinho mais pesados e importantes que tive oportunidade de comprar numa banca e ler.


Axé.

Wolverine. “Arma X”

Grandes Heróis Marvel, n. 35. Abril Jovem, 1992.
Publicação original:
Marvel Comics Presents, #72 a #84, 1991.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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