por Doug Moench, história; Paul Gulacy, desenhos; Pablo Marcos, Jack Abel, Mike Esposito, arte-final
“Há muito tempo, eu o avisei de que haveria uma guerra entre mim e nosso pai.”
fah lo sue
Na minha cabeça, o nome desse arco é, na verdade, “A Saga da Destruição da Lua”.
Foi o primeiro “arco longo” que li com esse entendimento – porque o normal nessa época era no máximo um “continua no próximo número”. Mas aqui, desde o início já ficava claro que seriam vários capítulos – e dava um ódio, porque a Abril resolveu publicá-los entrelaçados nas revistas Heróis da TV e Capitão América, de modo que era obrigatório comprar as duas revistas todo mês. A estratégia, ao menos comigo, deu supercerto: eu que já comprava a Heróis da TV e não comprava a do Capitão, passei a comprá-la também por causa das histórias de Shang Chi e sua trupe do MI-6.
É engraçado reencontrar agora essas histórias e “descobrir” que elas foram todas publicadas num curto período de quatro meses. O tempo sem dúvida é relativo, e demora muito mais a passar quando se é criança. Do aniversário ao 12 de outubro, e daí até o Natal, Nossa!, como demorava.
Eu tinha todas estas revistas na época, e era um dos meus orgulhos emprestar a “saga” completa aos colegas. Hoje em dia, entretanto só recuperei algumas para minha coleção, de modo que este post seria apenas parcialmente possível sem o acervo enorme reunido no Guia dos Quadrinhos, que me permitiu tirar dúvidas e ativar memórias.
A coisa toda começa aparentemente despretensiosa, com Shang Chi indo investigar a morte suspeita de alguns espiões da Rainha. Daí se revela que uma empresa chamada “Despachantes Orientais” na verdade é uma fachada para uma seita de assassinos, os “Adagas Douradas”. Surge um vilão interessante, o Punho Elétrico, que dá um cacete no nosso herói, que fica então remoendo a expectativa pelo segundo round. Quando finalmente chega o dia da revanche, nosso herói devolve a surra jogando o vilão elétrico na piscina.

Enquanto isso, todo um tabuleiro intrincado vai sendo montado: Dr. Petrie e Ducharme como agentes duplos, James Larner chamado de volta pra equipe, o triangulo amoroso entre Leiko, Shang e Reston – quem um dia chifrou também será chifrado um dia – etc.
E é aí que surge Fu Manchu no centro da trama, como o comandante de tudo – exceto os chifres.
Fu Manchu é o primeiro vilão a dar nome e rosto ao “perigo amarelo” que estava também em voga no início do século XX, em uma série de livros e contos escritos pelo seu criador, Sax Rohmer. Sabe esse visual de um velho oriental, alto e magro, com bigodes finos e compridos e uma trança igualmente fina e gigante?

Pois é. O “satânico” Dr. NO que enfrentaria James Bond, o Imperador Ming que enfrenta o Flash Gordon, e muitos outros vilões aterrorizantes do Oriente são derivações de Fu Manchu, às vezes acompanhados também de uma filha “femme fatale”. Na Marvel, ainda temos o Mandarim, inimigo do Homem do Ferro, e o Garra Amarela, inimigo de Jimmy Woo e Nick Fury.
Warren Ellis também tem o seu respectivo “Fu Manchu” em posição central nas tramas de Planetary, o misterioso Hark e sua filha Anna.
Segundo a Wikipedia, até mesmo o Rã’s al Ghul, vilão do Batman, é inspirado em Fu Manchu. Embora não seja chinês, mas talvez persa, acho que realmente combina, porque o cara também é “imortal” e tem uma filha irresistível e casca-grossa, a Talia, que inclusive é a mãe do bat-herdeiro.
Aliás! Pensando alto aqui, provavelmente o fato de ter quase sempre uma filha do vilão que tem seus próprios planos de poder absoluto quer dizer alguma coisa sobre o “perigo feminino” ser também tão ameaçador quanto o “perigo amarelo”…
Nesta época, a Marvel pegou os direitos do vilão chinês e seu respectivo universo para gerar um contexto bacana para Shang Chi, o Mestre do Kung Fu, que vinha pra aproveitar a onda dos filmes do Bruce Lee e de toda a turma de Hong Kong – assim como Luke Cage também foi criado pra aproveitar a onda do “blaxpoitation”.
Então, nos gibis da Marvel, Fu Manchu surgia como o pai do herói ingênuo Shang Chi, e seus arquinimigos Nayland Smith – agora com o título de “Sir”-, e Dr. Petrie também vinham dos livros, assim como sua filha Fah lo Sue. Ao invés da SHIELD, aqui a organização que “defende o mundo livre” é o MI-6, a divisão ultra-secreta da inteligência britânica. Completam o time de Sir Nayland Smith os agentes Black Jack Tarr, Clive Reston, James Larner, e a maravilhosa Leiko Wu.

Fu Manchu comandava diversos grupos de criminosos e seitas de assassinos, com destaque para os SiFans e os Dacoits, além de ter tentáculos e espiões infiltrados por toda parte – afinal, eram séculos se dedicando a, primeiro, enfrentar o domínio britânico, e depois, resistir também ao regime comunista. O objetivo era trazer de volta os valores e a glória da China Imperial – sob o seu arguto comando, logicamente.
Neste arco de aventuras, especificamente, o plano é simples, direto e modesto: explodir a Lua, gerando um cenário de catástrofes ambientais em todo o planeta, inviabilizando a corrompida civilização moderna, recuperando os brios da humanidade: e então a China estaria muito mais preparada do que os ocidentais para liderar o planeta a partir daí – retomando o seu posto merecido. No processo, claro, matar finalmente Nayland Smith seria um prêmio adicional nada desprezível.
Mas só acessamos esse plano um pouco mais perto do final da trama, porque o que vamos descobrindo ao longo da jornada é que na verdade quem está aporrinhando o MI-6 é a filha do homem, Fah lo Sue, que coordena a seita dos Adagas Douradas como uma espécie de tenente-coronel de Fu Manchu. Porém, Fah lo Sue tem seus próprios planos de poder absoluto – eu avisei! -, e o que ela pretende na verdade é levantar uma rebelião dentro da organização, eliminar Fu Manchu e assumir o comando. Deixando a Lua lá quieta, inclusive.

Essa premissa aparentemente estapafúrdia e esotérica se torna realmente crível graças ao sensacional e cinematográfico roteiro de Doug Moench, com viradas de mesa acontecendo o tempo todo, com os personagens se revelando agentes duplos, agentes duplos se revelando agentes triplos e por aí vai. Mas tudo de modo que não fica caótico ou mal-resolvido como num roteiro do J. J. Abrahams: pelo contrário, cada virada de mesa torna tudo mais consistente, e vai aumentando o suspense pois ninguém sabe realmente o que está acontecendo.
De modo que mesmo agora, tive que reler umas três vezes pra não me perder. Porque tem personagem que é agente de Fu Manchu infiltrado espionando Nayland Smith. Tem agente de Nayland Smith infiltrado espionando Fu Manchu. Tem agente de Fu Manchu infiltrado na equipe de Smith, mas que na verdade é fiel a Fah lo Sue, não a Fu Manchu. E tem o Larner: que não é fiel a ninguém, quer que todo mundo se lasque, e ainda morre no final.
Um artifício literário que explodiu minha cabeça de guri na época, e que continua extremamente charmoso ao reler as histórias hoje, é que Moench abandona o clichê do narrador impessoal ou onisciente, que fica dizendo coisas como “enquanto isso, do outro lado da cidade…”; ou que fica explicando o que todos já sabemos tipo “…a bateria no peito de Tony Stark brilha enquanto envia energia para seus poderosos raios repulsores”.
Neste arco, quem assume o papel de narrador em cada história é um dos personagens – Reston, Leiko, Tarr, Nayland Smith…-, que nos conta qual o seu ponto de vista a respeito das cenas que estamos vendo quadrinho após quadrinho. Fica muito interessante, porque o narrador não está vendo necessariamente todas as cenas junto conosco: tem coisas que ele não vê, tem coisas que ele vê de outro ângulo, tem coisas que ele não entende ou simplesmente tem outra opinião a respeito.
No fim, a história que conclui a saga é narrada do ponto de vista do próprio Fu Manchu. É sensacional.
Nunca entendi, desde essa época, porque tal recurso não foi utilizado novamente, em qualquer outro gibi. Não me lembro de ter visto nada parecido.
A outra coisa que torna esta fase uma obra-prima é a arte de Paul Gulacy. Este arco é o último dele de um longo período com o Shang Chi, onde tem pelo menos mais dois clássicos, o embate com o traficante de armas Carlton Velcro – de onde surge o vilão Executor (ou Razor Fist) que comparece ao filme do MCU – e a bela história com Shen Kuei, o “Gato”.
Paul Gulacy desenha com uma anatomia única, cenas de combate sensacionais, uma divisão de “quadro a quadro” que sai do padrão com frequência. Desenha roupas e tecidos e couro, ao invés daqueles uniformes chapados de herói. Ah sim, e suas mulheres são divinas e irresistíveis – Fah Lo Sue é uma vilã no nível da Mulher Gato de Michele Pfeiffer. Sério.
E, muito antes das homenagens que os craques Mike Deodato e Bryan Hitch costumam fazer atualmente, Paul Gulacy trouxe simplesmente Marlon Brando e Sean Connery para o elenco das histórias, além de desenhar o meu Bruce Lee preferido de todos os tempos no papel de Shang Chi.


No final, a Lua não explode, nem os Vingadores nem os X-Men aparecem pra ajudar, e Fu Manchu é surpreendido pela traição suprema vindo justamente do virtuoso Shang Chi. Nosso grande vilão termina a saga sozinho e mortalmente ferido, num pedaço de nave espacial reentrando em chamas na atmosfera terrestre.
Axé!
PS: Apenas agora, ao consultar os dados do Guia dos Quadrinhos, foi que me dei conta, com 40 anos de atraso: a capa de HTV 31, que marca o início “oficial” da saga e também estampa este post, na verdade diz respeito a um arco posterior de histórias. Uma fase legalzinha – mas bem mais fraca -, conduzida pelo lápis de Mike Zeck, e onde Leiko veste o tempo todo um uniforme branco e rosa sem nenhuma graça.
PS2: A história em que Shang Chi enfrenta Shen Kuei se passa na Hong Kong dos anos 70, quando a cidade ainda não tinha sido “devolvida” à China pelos britânicos – não entendia direito essa história na época, e mesmo hoje não entendo realmente qual é o “status político” de Hong Kong. Enfim. Mas é muito curioso que, ao andar pelas ruas de Hong Kong, Chi é chamado o tempo todo de “branco” e “inglês”, numa conotação obviamente racista.
Foi publicada em Heróis da TV n. 25, ed. Abril, 1981. (Master of Kung Fu, #38-#39. 1976.)


