por Chris Claremont, história, Walter Simonson, desenhos, Terry Austin, arte-final
Quem se atreve a invocar a Fênix Negra ?
Fênix
À primeira vista, pode parecer até estranho o que vou dizer, mas popularidade nos quadrinhos é uma coisa bastante volátil. Claro que tem os ícones que se popularizam muito rapidamente, se consolidam e nunca mais saem das mochilas, cadernos e canecas, como é o caso de Superman e Batman nos anos 30 e Homem-Aranha nos anos 60. Provavelmente o Wolverine esteja hoje também consolidado, após destacar-se nos quadrinhos, depois nos desenhos da TV, e principalmente após 20 anos de Hugh Jackman. Mas não é tão trivial.
O Capitão América, Flash e Lanterna Verde perderam força após o fim da Segunda Guerra para voltar no final dos anos 50 início dos 60; a primeira formação dos X-Men não engrenou, mesmo com boas histórias, e ficaram sem um gibi próprio por um tempo, no início dos 70. E há aqueles personagens que tem o seu auge, depois somem: o Nuclear – aquele de uniforme amarelo com um foguinho na cabeça – foi tão popular nos anos 80 que cavou uma vaguinha no desenho dos Superamigos. Howard o Pato chegou ao disparate de ter um filme nos cinemas, onde fazia par romântico com Lea Thompson!! E Spawn é um herói interessante até hoje, mas gigante apenas pra quem se formou como leitor nos anos 90.
E, também nos anos 90, o casal mais popular a estampar mochilas e cadernos escolares era formado por Vampira e Gambit.
Neste momento do início dos anos 80, as duas equipes mais populares dos quadrinhos não eram Vingadores e Liga da Justiça. Até porque o conceito de “os maiores heróis de Terra” não se aplicava na época. Na Liga, raramente Superman, Batman, Mulher Maravilha, Flash e Lanterna Verde estavam todos juntos na mesma missão. Ao invés de escalar o time titular, quase sempre era um “mistão”, que juntava alguns dos grandes com outros personagens interessantes, mas que com certeza eram de outra prateleira abaixo, como Zatana, Vibro, Nuclear, Canário Negro, Homem-Elástico, dentre outros.
Vejam bem, não estou dizendo que não gostava dessas histórias. Posteriormente, inclusive, a Liga Da Justiça Internacional de Keith Giffen & J.M DeMatteis & Kevin Maguire levou esse conceito de “mistão” às ultimas consequências, e era ótimo!
Nos Vingadores era ainda mais complicado. A impressão que eu tinha na época é que todo herói que tinha seu gibi cancelado se tornava um “vingador reserva” – Cavaleiro da Lua, Tigresa, Hellcat, Hércules, Miss Marvel, Mulher-Hulk e por aí vai. Em 1982, especificamente, os comics norte-americanos traziam uma formação enxuta com apenas quatro Vingadores – Capitão, Thor, Homem de Ferro e Vespa – tentando recompor o time, o que acabariam fazendo chamando de volta o Gavião Arqueiro, e promovendo a Hulkinha ao time titular.
O conceito de que essas equipes precisavam ter sempre os “maiorais” e ponto final começa a ser aplicado na DC apenas em meados dos anos 90, com a JLA de Grant Morrison e Howard Porter: Superman, Batman, Mulher Maravilha, Aquaman, Flash, Lanterna Verde e Ajax. Na Marvel, demorou ainda mais: é Brian Bendis, já com a missão de levantar a marca dos Vingadores para o futuro no cinema, é quem traz Wolverine e Homem-Aranha para os Vingadores, em 2004. E ainda havia dois times, então foram convocados Capitão, Homem de Ferro, Vespa, Magnum, Miss Marvel, Viúva Negra, Homem-Aranha, Mulher-Aranha e Wolverine – mas também vieram Ares, Luke Cage, Sentinela, Ronin… Enfim, ele foi bem sucedido em alavancar as vendas, mas o filme do cinema foi baseado em outros Vingadores, o do Universo Ultimate, onde a formação estava realmente mais clássica, com Capitão, Homem de Ferro, Vespa e Gigante, Thor, Hulk, Viúva Negra, Gavião Arqueiro e Feiticeira Escarlate.
O desenhista dos Vingadores Ultimates, Bryan Hitch, decidiu desenhar o seu Nick Fury como um homem negro, baseado no visual de Samuel Jackson no filme SHAFT. Fico imaginando o quanto Samuel Jackson deve ser grato a Bryan hoje em dia, após tantos anos de contrato com a Marvel que vieram depois…
Bah, me perdi um pouco.
O ponto que queria ressaltar é que, naquele início dos anos 80, as duas equipes mais populares e relevantes dos gibis eram, sem dúvida, os X-Men e os Novos Titãs.
Os X-Men renovados por Len Wein em 1975 acumulavam um arco sensacional após o outro, num novelão de longuíssimo prazo conduzido por Chris Claremont, primeiro com Dave Cockrum, depois com John Byrne, quando então os X-Men assumiram de vez sua posição no primeiro time da Marvel. Viriam depois ainda outras fases, com John Romita Jr., Paul Smith, e um auge ainda mais intenso nos anos 90, com Jim Lee.
Os Novos Titãs são uma renovação da outrora Turma Titã, que trazia antigamente todos os “sidekicks” – os parceiros-mirins: Robin, Moça Maravilha, Kid Flash, Aqualad e Ricardito. Marv Wolfman e George Perez, dois gênios que mais tarde seriam responsáveis também pela “Crise nas Infinitas Terras”, atualizaram a ideia da equipe de parceiros mirins, colocando um tempero de crise existencial pós-adolescente, tipo o filme “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”.
Robin em processo de se tornar adulto e construir sua própria vida longe do morcegão; Kid Flash em crise com o fato de ser uma versão mais fraca e confusa do Flash – coitado, Wallace nem imaginava que teria que assumir o lugar de Barry Allen em breve; já Donna Troy estava indo muito bem, obrigado – tinha uma vida profissional próspera e a sorte de um amor tranquilo.
Completavam a nova equipe Mutano, o garoto transmorfo verde responsável pelo alívio cômico; Koriander, a princesa alienígena voluptuosamente sexy em sua pele de ouro marrom; Cyborg, o ex-atleta negro, que provavelmente já cumpria o papel de inserir alguma representatividade naquela época; e Ravena, a feiticeira deprimida, a primeira EMO de todos os tempos.
Isso é assunto para um post específico, mas vale pontuar que Marvel e DC se mexeram um pouco – bem pouco, vá lá – a partir do Movimento dos Direitos Civis, para inserir alguma diversidade racial nos gibis. Na Marvel surgem Pantera Negra, Falcão e depois Luke Cage; na DC, o Lanterna Verde John Stewart, o Raio Negro, e, bem mais tarde, o Cyborg. No caso da mulheres negras, então, nessa época dos início dos anos 80 dava pra contar nos dedos de uma mão: a Tempestade dos X-Men no posto de maior heroína negra de todo o mainstream Marvel e DC, sendo seguida à (enorme) distância por Fóton e Misty Knight, na Marvel, e Bumblebee e Vixen, na DC.
Um encontro entre essas duas equipes faria os olhos dos leitores da época brilharem. E, apesar do roteiro não ser lá grandes coisas, Claremont e Simonson nos entregam uma bela “Sessão da Tarde”. A história traz os personagens queridos de todos à época, e a morte de Jean Grey ainda era uma ferida recente e dolorida – mais ainda no caso de nós brasileiros: a Abril publicou este encontro apenas seis meses depois da publicação do capítulo final da Saga da Fênix.

Darkseid elabora mais um dos seus planos para dominar a Terra. Desta vez, ele vai reunir resíduos energéticos e psíquicos deixados pela Fênix, nas memórias de seus amigos e parentes, nas suas maiores batalhas, e até mesmo no lugar onde ela e Scott tiveram sua “primeira vez”. Assim ele será capaz de trazer Fênix à realidade por alguns momentos, o suficiente para executar seu plano de destruição e renascimento.
A invasão psíquica na mente dos X-Men faz com que todos tenham pesadelos sobre Jean Grey, exceto Kitty Pryde, que mal a conheceu. Enquanto isso, na Torre Titã, a movimentação das forças do Mal perturba o sono de Ravena, que ao contar suas visões para Koriander deixa a nossa alienígena apavorada. Convencida de que Fênix, a Perversa, está voltando, ela insiste para que os Titãs investiguem o caso.
Robin, ponderado como um Roberto Frejat, aponta que talvez seja melhor telefonar pra Liga da Justiça ou pros Vingadores, afinal enfrentar ameaças cósmicas estaria um pouco além da capacidade dos Titãs. Mas é inútil.
Minutos depois, os Titãs estão invadindo uma reservada escola em Westchester, porque dizem que ali é a base dos X-Men, atacando e espancando um pobre homem careca e cadeirante que estava por ali.
Robin, então, se pronuncia preocupado com o rumo das coisas, tal e qual um grilo falante.

Sim, Robin, e não se esqueça do espancamento do cadeirante… Santa covardia, Batman!
Um momento de grande potencial é desperdiçado, quando o que poderia ser uma inesquecível luta entre Wolverine e Slade Wilson, o Exterminador, é resolvida em apenas dois quadrinhos. Enquanto isso, Darkseid vai botando todo mundo no bolso: seus capangas são tão competentes quanto Bebop e Rocksteady, mas são muuuuito mais numerosos – Santa Tartaruga!!
E então, ele consegue concluir a primeira parte do plano.

Mas aí, em um momento típico de vilão de desenho animado, ao invés de simplesmente pulverizar os acorrentados mutantes e parceiros-mirins, Darkseid deixa os caras pra lá. No espaço. Pra morrer de frio, sem oxigênio, sei lá.

Num lance de muita sorte, eles encontram a poltrona-nave de Metron – sim aquela mesma que inspirou a poltrona-nave de Thanos – e conseguem voltar à Terra, na verdade ao Central Park, que é onde frequentemente as sagas cósmicas se resolvem. Lá uma agonizante e residual Fênix tem dificuldades mais emocionais do que técnicas para enfrentar uma vez mais seus melhores amigos, e não resiste a um ataque psíquico coordenado, baseado no Quinto Elemento que todos sentiam por ela.
Não entendeu a referência, xóven? Vá ver o filme então.

Vejam só que curioso, trinta anos antes do “Phoenix Five” nas histórias de “Vingadores versus X-Men”, Scott Summers foi hospedeiro da Fênix. Por poucos segundos, mas foi.
Axé!
PS: Uma coisa interessante é o posicionamento que a história faz da cronologia. Quando Koriander explica para os Titãs qual o patamar absurdamente cósmico da ameaça, ela diz que ouviu falar da Fênix Negra quando ainda era escrava da Cidadela. Eu acharia inicialmente que seria algum daqueles “ajustes” que Jotapê e Helcio precisavam fazer pra coisa funcionar, mas conferindo aqui, nem é. Os Novos Titãs estreiam nos EUA em 1980. A Saga da Fênix é concluída, com a morte de Jean, em 1980. Então realmente quando Kory relata a destruição da estrela Debari, realmente ela “ainda” não tinha fugido da Cidadela.
PS2: Você acha que estou errado ao não mencionar Aquaman lá em cima entre os “maiorais”? Justifique sua resposta.
PS3: Koriander foi precursora dos métodos de aceleração de aprendizagem de idiomas que, dizem, algumas celebridades aplicam por aí.
