Cavaleiro da Lua. “Origens”

Por Doug Moench, História; Bill Sienkwiecz, Desenhos; Frank Springer, Arte-final.

A Luz das tochas dança sobre o tesouro de um Rei morto e nas feições de pedra do Deus negro que o guarda.

Não tinha lido essa história na época, porque tinha desencontrado  dessa edição número 3 nas bancas. Ou talvez tenha pulado de propósito, porque não vinha história do ROM nessa…Enfim, eu tinha a 1 da MulherHulk, a 2 do ROM, e depois a 4 do Dr. Destino herói. De modo que realmente só a li pela primeira vez agora, com 40 anos de atraso, ao folhear esta edição que comprei há tempos atrás mas nem abri.

E foi uma baita duma surpresa. Claro, já tinha lido outras histórias dessa época, desenhadas por um ainda comportado Sienkwiecz. Mas confesso que não tinha como captar direito as nuances da coisa de múltiplas personalidades – achava que era uma coisa de disfarces e personagens, não sacava o quanto ele realmente mudava quanto “dava passagem” pro Lockley, por exemplo.
No fundo, achava que era mais uma versão do Batman, só que com um “bruce wayne” assumidamente doido de pedra.


Mas o que me surpreendeu mesmo agora foram alguns detalhes da origem do Cavaleiro da Lua, e de como eles soam atuais, apesar de escritos em 1980.

Marc Spector é um soldado mercenário que atua em operações no Sudão. Sienkwiecz tem o cuidado de desenhar as mulheres que correm com suas crianças, em fuga dos tiroteios, vestidas com hijabs, deixando claro que as comunidades atacadas não sao “tribos africanas” clichê, mas vilarejos de cultura islâmica. Pode parecer exagero meu destacar isso, mas lembrem-se que o 007 de Roger Moore uma vez saltou de asa delta do Cristo Redentor e pousou na Amazônia; e uma vez Brian Bendis fez o seu Ultimate Peter Parker pousar no Aeroporto de Guarulhos, e Mark Bagley desenhou um aeroporto no meio da selva.

O fato da história de Doug Moench nos mostrar mercenários operando no Sudão me soou surpreendentemente atual. Afinal, a não ser que você tenha passado o último semestre em Marte, deve ter ouvido falar no Grupo Wagner,  exército de mercenários que atuava na guerra na Ucrânia, se desentendeu com a Rússia, e recentemente teve seus lideres vitimados por um desastre aéreo – gerando instantâneas e contraditórias teorias conspiratórias.

Bem, além do front na Ucrânia, os soldados do Grupo Wagner operam também fortemente no Sudão, neste momento em 2023.


Marc Spector é  um soldado mercenário que atua em operações militares no Sudão. Justamente após salvar a vida de seu líder, testemunha uma execução de civis indefesos. Revoltado de tanta culpa, decide sair da equipe – mas, é capturado pelos seus ex-camaradas e abandonado para morrer no deserto. Já praticamente morto, encontra as ruínas de um templo de um Deus negro do Egito Antigo, e entao renasce como seu avatar, o Cavaleiro da Lua!

Aqui novamente chamo a atenção para um sinal de cuidado de Moench e Sienkwiecz. Honshu, o Deus da Lua Egípcio que acolhe e ressuscita Marc Spector – ou não, né,  porque tudo pode ser.l apenas alucinação da cabeça de Marc – não é um personagem de um Egito clichê,  do padrão Cleópatra de olhos verdes estabelecido por Hollywood.

Não, este Deus da Lua está no Alto Nilo, em território não do atual Egito, mas no Sudão. E é, obviamente, negro.

Nos últimos anos coisas que talvez fossem discutidas há tempos só nas universidades se tornaram um pouco mais difundidas, e provavelmente você já viu algum vídeo na Internet falando de Kemet, o reino que originou o que os gregos chamariam séculos mais tarde de Egito, ou nos lembrando  que os Faraós eram negros – em grande parte das dinastias, pelo menos. Ou sobre as idas e vindas na relação do que entendemos como Egito Antigo com os reinos de Nubia e Kuche…enfim, não saberia desenvolver essa tema adequadamente,  mas queria ressaltar mais uma vez que Moench e Sienkwiecz  fugiram do clichê e do trivial ao nos apresentar a um Deus da Lua egípcio e negro, já em 1980. Richard Pryor concordaria.

Claro que seria ainda mais louco se Honshu resolvesse apadrinhar um cidadão ferido do Sudão, ao invés de um invasor branco, mas aí já seria querer demais.


Nesta fase inicial, nosso herói eram quatro: Marc Spector, a personalidade base que aparece pouco; Steven Grant, o galã milionário que aparentemente investiu bem os diamantes e arregos acumulados pelo mercenário Spector; Jake Lockley, o taxista, que circula pelas ruas buscando informações e sentido de pertencimento; e Lunar, o Cavaleiro da Lua, um guerreiro implacável e impiedoso.

Completavam a equipe dois charmosos e eficazes personagens. O Francês, piloto do belo helicóptero em forma de quarto crescente, âncora do nosso herói quádruplo com o passado; e Marlene, que na época eu subestimava, achando que ela era só uma beldade circulando por ali, mas hoje entendo que tinha um papel fundamental como uma reserva moral, que mantinha Lunar nos limites do “herói combatente do crime” e o impedia de simplesmente degringolar e se tornar um vigilante tipo Justiceiro.

Nos anos recentes, Spector e Lunar nos foram reapresentados sem esse apoio fundamental de Francês e Marlene. Mais desequilibrado do que nunca, portanto.


Axé!

PS. Pode não ser tão claro a primeira vista,  mas há uma linhagem de humoristas negros norte-americanos que defendiam suas causas por meio do entretenimento, de modo implícito, mas as vezes até explicitamente. Nos filmes de Eddie Murphy, por exemplo, há personagens de todos os tipos para  elencos majoritariamente negros – modelos, empresários, publicitários, escritores, nao era só o “pessoal do ghetto”.
“Eu a Patroa e as Crianças” é uma típica sitcom de classe média, onde a questão racial não parece ser central – e daí mesmo emerge sua importância simbólica. Kyle é um empreendedor bem sucedido, que passou perregue, e ainda trabalha duro para dar conforto para sua família, enquanto enfrenta suas questões de pai e marido “pequeno burguês”. Tem várias outras, destacando também “Um Maluco no Pedaço ” – que era frequentemente explícita ao trazer suas críticas sociais e políticas, inclusive à  própria militância às vezes.

PS2. Sei que alguns de vocês vão considerar que estou procurando chifre em cabeça de cavalo, mas vejam só: apenas agora, em 2023, tivemos uma novela na TV brasileira em que a maioria dos personagens eram negros, e não se passava nos tempos da escravidão. Em outras palavras, só quando as novelas eram “de época”, com muitos personagens escravos, tínhamos uma proporção grande de atores e atrizes negros. Em novelas normais, que se passam em tempos atuais, a regra geral é uma desproporcionalmente baixa diversidade. Vocês devem lembrar, por exemplo, que tempos atrás teve uma novela que se passava na Bahia, e não tinha personagens negros – e uma outra onde os personagens protagonistas eram descendentes de japoneses no Brasil, e ainda assim não chamaram atores e atrizes nissei.

PS3. Há um memorável esquete com Richard Pryor, de 1977, onde exploradores britânicos chegam a uma catacumba egípcia,  a “fonte de todo o conhecimento da civilização”. Pryor, um dos integrantes da expedição, observa tudo maravilhado e exclama o óbvio – para desconforto dos outros “indiana jones” que estavam com ele – incluindo um jovem Robin Wiliams.

– Hey pessoal, esse caras são todos pretos!! São pretos como meu tio !! Eles inventaram tudo!! Séculos antes de Cristo!! Caramba, imagina só quando meus brothers todos ficarem sabendo disso!!

Se tiverem curiosidade, assistam até o final.

Cavaleiro da Lua. “Origens”

Doug Moench, História, Bill Sienkwiecz, Desenhos, Frank Springer, Arte-final

Almanaque Premiere Marvel, n. 3. RGE, 1982.
(Moon Knight #1, Marvel, 1980)

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Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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