por Gerry Conway, história; Ross Andru, desenhos; Dick Giordano, arte-final
Vamos deixar quem nos enganou escapar ileso ou devemos unir nossas forças e encontrar o responsável?
Superman
O valor histórico desta aventura é enorme. Nem é uma trama muito boa, gosto mais do segundo encontro, com o Dr. Destino como vilão. Mas esta aqui é o primeiro cross-over de todos os tempos entre as duas casas que dominam o mundo dos quadrinhos de super-herói.
Para estrelar esse momento único, o maior ícone de cada casa. E, se hoje em dia talvez alguém pudesse questionar – por que não Batman e Wolverine, por exemplo? – naquele ano de 1975, a vantagem de Super-Homem e Homem-Aranha sobre os outros era muito grande.
Batman tentava se recuperar do sucesso estrondoso da série de TV, tentando voltar a ser um herói temido, pelas mãos principalmente de Denny O´Neil, Jim Aparo e Neal Adams. Do lado da Marvel, não tenho certeza mas provavelmente o segundo herói mais popular era o Coisa – ou o Hulk.
Os vilões escolhidos eram os seus principais antagonistas. Lex Luthor, e Dr. Octopus. O Duende Verde original, Norman Osborn, estava morto, e pelo visto Harry Osborn não foi muito levado a sério pelos editores.
Como Gerry Conway conta, naquele momento ele e o desenhista Ross Andru eram os únicos que já tinham trabalhado com ambos os heróis, por isso a responsabilidade pela obra recaiu sobre eles. Porém, é dito também que houve retoques, com Neal Adams revisando algumas cenas do Super-Homem e John Romita revisando cenas do Aranha, Parker e Mary Jane. De fato, é fácil perceber o traço deles em alguns momentos.
Encontramos Clark e Lois – aqui ainda chamada de Miriam Lane, como nas traduções antigas – não na redação do Planeta Diário, mas nos confusos e estressados estúdios da Rede Galáxia de televisão. O magnata Morgan Edge é um chefe muito menos carismático do que Perry White, e realmente não lembro se esta tentativa de “atualizar” o ofício repórter de Clark era legal – nunca fui um grande leitor do azulão caipira. Acho que a única coisa que eu achava interessante nesta fase é que Lana Lang ressurge pra tirar o conforto da Lois, mas nem tenho certeza se era nessa época mesmo.

Relendo agora, achei interessante a menção a “inúmeros feridos e incontáveis vítimas” causados por um combate cotidiano e trivial entre o Super-Homem e um robô gigante pilotado por Luthor. Não consigo me decidir, porém. Isso é um sinal de que a cidade era “mais tolerante” aos danos colaterais causados sempre que algum herói resolvia salvá-la? Ou, ao contrário, o simples uso dessas palavras já seria sinal que essa “tolerância” começava a ser reduzida nesses anos 70, como seria o padrão nas décadas seguintes, a partir de Watchmen?
O Lex Luthor que vemos aqui é o clássico cientista louco de uniforme roxo, que não tinha maiores complexidades em suas intenções que não fossem dominar o mundo e fritar Clark com kriptonita. Este não é o Luthor que surgiria anos depois, dono da Lexcorp, magnata da indústria, que tem um justificado receio a respeito da confiança que depositamos num alien com poderes titânicos, como o Bill de Tarantino explica deveras bem… e, claro, muito ciúme também. O papel de Otto Octavius não é muito desenvolvido, atuando praticamente apenas como ajudante nos planos de Lex.

Me surpreendi ao ver que este Luthor pré-Crise já dialogava com uma infância em Smallville, onde teria sido amigo de Clark. Cânone gerado nas histórias do Superboy, talvez?
Enquanto Luthor e Kal-El destruíam um bairro de Metropolis, o Aranha evitava um assalto a um museu, enquanto sua máquina fotográfica batia “selfies” desfocadas de qualidade duvidosa. Então surge Octopus, pega nosso herói desprevenido, salva os capangas e a pilhagem. Na manhã seguinte, entretanto, será encontrado pelo Aranha, que colocara um rastreador na roupa de Otto durante a luta na noite anterior.
Essa “solução” do rastreador-aranha era bem comum nas histórias antigas. Golpe manjado. Manjado também era o lance de “oh céus, acabou o fluido de teia” deixando o Aranha perdido “em queda livre” entre um prédio e outro. Esse também é usado aqui nesta aventura, umas duas ou três vezes ainda por cima, porque Peter esquece de recarregar os lançadores de teia.
Respectivamente presos pelos seus arqui-inimigos, os vilões se encontram na mesma prisão, como vizinhos de cela – parabéns ao diretor da penitenciária! Luthor então monta um aparelho lá juntando umas peças de radinho de pilha, e consegue fugir da prisão na garupa do Dr. Octopus – que aliás, estava preso na cela ainda vestindo os seus tentáculos – parabéns novamente ao diretor da penitenciária!

Com os dois vilões à solta e trabalhando juntos no novo plano infalível de Luthor, é questão de tempo, e algumas poucas páginas a mais, para que nossos heróis se encontrem pra salvar o dia. Mas antes disso, são as respectivas patroas que se esbarram – e se estranham, levemente. Isso porque MJ chega justo num momento em que um conversador Peter Parker está animado por ter sido reconhecido como “aquele fotógrafo famoso de Nova Iorque” pela celebridade super-repórter Lois “Miriam” Lane…

Quando finalmente chega o grande momento, lá pela página 50, nossos heróis seguem a risca a regra de ouro do Manual de Conduta dos Supers: se encontrar um outro colega uniformizado, brigue primeiro, pergunte depois.

Aliás, tem muito do traço de Neal Adams no Super-Homem dessa cena, sem dúvida.
Após um golpe de sorte inicial, a realidade se impõe, e o Aranha pondera enfim que é melhor conversar e chegar a um acordo com o Azulão.

Ao resolverem se juntar para investigar o sequestro de Lois e Mary Jane – ah sim eu esqueci de mencionar isso né – nossos heróis encontram um esconderijo de Luthor, onde enfrentam armadilhas diversas apenas para descobrir que os vilões – e as meninas – não estão mais lá, mas em outro esconderijo de Lex, no Monte Kilimanjaro, na fronteira entre Tanzânia e Quênia.
Não faço a menor ideia de qual a razão pra levar a trama, assim totalmente do-na-da, para uma passagem rápida na montanha mais alta do continente africano. Mas, me lembro que o Kilimanjaro já foi mais presente na cultura pop, assim como areias movediças, por exemplo. Talvez seja só algo da época mesmo.
Após Kal-El mostrar toda sua fluência no idioma Masai conversando com nativos, mais alguns robots e armadilhas são superados, mas aí descobrimos que os vilões e suas reféns estão, na verdade, em uma base no espaço! Então o Super-Homem e o Aranha vão até lá – o Aranha pilotando algum tipo de jatinho micro nave espacial, tomado emprestado da NASA – ou da Liga da Justiça, ou do Quarteto Fantástico, quem se importa não é mesmo?
Não saquei direito como que eles foram tão rápido de Nova Iorque pro Kilimanjaro e de lá voltaram pra pegar a naveta emprestada. Claro, o Azulão voa o tão rápido que ele quiser, carregar o Aranha no colo em Mach 5 ou 7 não deve ser problemático, só esmagaria o Peter, acho. Por outro lado, Luthor e Otto mencionam ter usado teleporte. Pelo menos uma explicação digna.
Chegando na base espacial de Luthor, adivinhem? Armadilhas! E, desta vez, logicamente, elas conseguem abalroar nossos heróis, deixando Kal-El ligeiramente tonto e enfraquecido, devido aos lasers de Sol Vermelho e provavelmente alguma kryptonita que devia ter por ali. O que foi extremamente conveniente, porque senão como iríamos justificar que a luta entre o Super e o Dr. Octopus demorasse além de alguns milésimos de segundo?
Enfim, algumas cenas de luta, Octopus perde o óculos, Super usa judô para derrubá-lo, enquanto isso Luthor aperta lá o botão, criando um tsunami que vai varrer a costa leste do EUA. O Super finalmente resolve se dedicar um pouco mais no serviço, e sai voando em supervelocidade de volta à Terra para tentar parar o tsunami no braço. O Aranha fica sozinho no satélite segurando as pontas, mas então Dr. Octopus, que não tem vocação pra vilão genocida, fica apavorado com o verdadeiro objetivo dos planos de Luthor, e resolve ajudar o Aranha a enfrentá-lo.

O Azulão desarticula o Tsunami com algum estratagema que meus conhecimentos em Física não me permitem compreender, mas acho que é um daqueles “super túneis de vento” que o Flash também usa bastante.
Enfim, tudo acaba bem quando termina bem, e então nossos heróicos casais resolvem curtir um merecidíssimo vale-night !

Axé!
PS1: Só agora pesquisando foi que entendi o porquê de Lois aparecer como o nome de Miriam Lane. Esta aventura de 1976 foi publicada no Brasil pela primeira vez já em 1977, pela saudosa EBAL.
PS2: Ok ok, devo fazer uma autocrítica. Estou aqui mal-humorado cobrando coerência de detalhes na história, mas não fico nem um pouco preocupado quando ocorrem coisas até piores nas histórias dos X-Men ou Vingadores. Tenho que tentar ser mais imparcial ao escrever sobre DC…
PS3: Com vocês, Bill (David Carradine) ponderando algo que poucas pessoas na DC realmente se preocupam, além de Lex Luthor e Bruce Wayne…e talvez Amanda Waller também.
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