Liga da Justiça. “Justiça”.

por Alex Ross e Jim Krueger, História; Alex Ross e Doug Braithwaite, Arte.

“Ser à prova de balas não significa nada. Tudo que ricocheteia em mim atinge alguma coisa. Pode atingir outra pessoa.

E quem corre mais risco é quem está perto de mim.

Imagine viver com esse peso todos os dias. Seria ótimo se outra pessoa fosse o Superman.

Mas não foi me dada escolha.
Apenas a responsabilidade.”

KAl-EL

Revisitei estes gibis com a memória completamente diferente – não me lembrava da história em quase nenhum detalhe. Na verdade é pior, me lembrava de outras coisas, que não estão na história. Como quando você dorme enquanto vê TV, continua sonhando com o filme, e de repente acorda e demora a entender que o roteiro do seu sonho tinha ido por caminhos bem diferentes – e quase sempre, melhores.

Não lembrava de como a leitura era difícil. Claro, não num nível Watchmen ou Sandman. Mas são tantas tramas paralelas, e cada diálogo tem uma densidade e camadas explícitas e implícitas, que ou vc lê beem devagar, ou vai ter que ficar voltando toda hora pra tirar dúvidas.


A trama principal, ou pelo menos a camada explícita desde a primeira página, consiste numa precária aliança entre Brainiac, Lex Luthor, e Grood. Eles reúnem diversos vilões, os grandes inimigos de cada herói, para atuar em duas frentes: de um lado, um ataque definitivo à Liga da Justiça; do outro, a cura de todas as doenças e o fim da fome no mundo. 

Só não chamam o Coringa, que é demasiado louco para ser confiável.

Tudo começa com um ataque coordenado e simultâneo à Liga da Justiça, mas que vai sendo implementado de modo sutil e imperceptível. Aquaman é sequestrado em uma ação que parece apenas mais um dia comum de confusão causada pelo Arraia Negra. O praticamente inofensivo Charada invade a sede das Indústrias Wayne com seus capangas em algo que poderia parecer uma operação típica de roubo de dados financeiros, mas que um apavorado Batman rapidamente percebe o altíssimo risco envolvido: o real objetivo da invasão é hackear não as contas bancárias de Bruce Wayne, mas os sistemas da Batcaverna.

Batman resolve tudo relativamente rápido. O problema é desta vez o Charada não estava só, mas a serviço de Luthor e Brainiac, de modo que as defesas e firewalls da Batcaverna não resistem. E, então, subitamente, os vilões conseguem acesso a tudo que o Morcego sabe sobre seus inimigos e seus amigos. Suas identidades secretas, seus endereços, suas famílias.

Em questão de minutos, ataques surpresa a Hal Jordan e Barry Allen os colocam fora do tabuleiro; o que permite então um ataque fatal a Clark Kent, envolvendo o Parasita (lembra dele?) e muita, mas muita kriptonita. Os alarmes da Liga encontram o Caçador de Marte – que investigava o paradeiro de Aquaman – envolto em chamas, capturado em uma armadilha de Grood no fundo do oceano. E a Mulher Maravilha é surpreendida por uma Mulher Leopardo turbinadíssima pelos poderes dos deuses do Hades.

A vitória dos vilões é rápida e devastadora.

Usar o conhecimento do Batman contra a própria Liga foi uma premissa também muito bem executada por Grant Morrison.


Enquanto a Liga está fora de combate, os vilões seguem com suas ações humanitárias. Deixando todos preocupados com diversos questionamentos. Por que os vilões se tornaram os benfeitores da Humanidade? Onde está a Liga da Justiça agora? E, mais importante: por que a Liga da Justiça não fez nada disso por nós isso antes ??

A tensão entre os vilões vai ficando mais clara – nitidamente, Brainiac tem seus próprios planos, assim como Luthor. E Grood parece estar na equipe apenas para vigia-los o mais de perto possível. E cada vez mais gente emigra para viver nas Cidades Utopia construídas pelos vilões. Inclusive um magoadíssimo Coringa.


Mas, aí, como sempre, cabe aos roteiristas se esforçar pra salvar o dia e reverter toda a situação que eles mesmos engendraram – brilhantemente. Neste ponto, eu estava imaginando que Luthor salvaria o dia. Porque é óbvio que Luthor não poderia entrar numa aliança com Brainiac sem ter seus próprios planos para impedi-lo. Afinal, digam o que quiserem, mas Luthor a seu modo acredita ser um defensor da Humanidade contra alienígenas intrometidos.

Até acontece algo assim no final, mas é menos chave para a historia do que eu gostaria.

O que de fato acontece, assim como em o Reino do Amanhã, é o surgimento do Capitão Marvel como elemento surpresa. O que não faz muito sentido, pois o Capitão Fraldinha é uma cara nível Superman, não poderia ser esquecido por uma conspiração tão bem azeitada.

Pior ainda, os vilões usam intensamente nesta trama os “vermes de dominação mental”, que vocês provavelmente conhecem do filme Star Trek II – A Ira de Khan, mas que são uma tecnologia do Dr. Silvana – vilão clássico do justamente de quem? Enfim, fica muito estranho Brainiac ter atacado Silvana para roubar sua tecnologia, e não ter planejado uma estratégia para conter o Capitão Marvel. É como atacar o Coringa e esquecer do Batman.


Uma outra coisa que acontece, e essa sim é muito legal, é o que ficou – corretamente – na minha memória, e é por isso que eu voltei pra reler e escrever sobre esta aventura, é que partir de um certo ponto ela se torna uma bela homenagem ao time B da Liga.

Zatanna, Arqueiro Verde, Canário Negro e Homem-Elástico carregam a reação dos heróis nas costas.

E ao final, como sempre acontece, os planos B e C de Batman se revelam muito intrincados porém efetivos. Mas pode chamar de improviso também.


Paralelamente, do meio pro final revela-se algo que todos esperávamos: toda a operação realizada pela conspiração liderada por Brainiac, Luthor e Grood era, na verdade, apenas uma cortina de fumaça – sem trocadilho – para o REAL plano de Brainiac: a erradicação da vida orgânica na Terra. O que ele fará em um momento Skynet, provocando um Apocalipse nuclear, usando as senhas dos sistemas de mísseis de várias, obtidos também nos computadores do satélite da Liga.

Opa, peraí! A Liga tem as senhas da “bola de futebol”? Desde quando? Perdi esse episódio… Mas bem que faz sentido né, é a primeira coisa que eles precisariam ter para não deixar ninguém mandar mísseis nucleares em cima da Liga. Sei lá.


Impossível não perceber a ironia da situação. No final, o Apocalipse nuclear é evitado por alienígenas, a Tropa dos Lanternas Verdes. E, durante toda a reação dos heróis, é o anel do setor 2814 – operando em um patamar level épico Cubo Cósmico- que realiza a maior parte do trabalho, ou as tarefas mais estratégicas sem as quais todos os outros poderes e heróis seria apenas para enxugar gelo. Lex Luthor tem bastante razão ao se preocupar com o destino de uma humanidade superprotegida por aliens.

Aliás, Luthor deveria fazer uma nota mental para os seus próximos planos infalíveis: engolir o seu orgulho de gênio cientista e recrutar também magos e feiticeiros para ajudar. Esta Legião do Mal implementa um ataque coordenado perfeito. Mas eles cometem alguns erros imperdoáveis, infantis como todo vilão de quadrinhos comete – até para que seja possível o final feliz.

Todo vilão de quadrinhos, exceto Ozymandias.

Ora, ao desconsiderar completamente o mundo da magia, Luthor Grood e Brainiac se esquecem “apenas” do Capitão Marvel, e o assistem salvar Superman e Flash, estragando uma primeira fase perfeita.

Depois é Zatanna que passa a atuar em patamares de poder absurdos, sendo simultaneamente Wanda, Stephen, Loki e Dentinho. E é Zatanna quem traz Hal Jordan e seu anel de volta ao tabuleiro, o que isoladamente resolveria praticamente tudo daí pra frente.

Inclusive nosso roteirista Jim Krieger meio que reconhece que está acintosamente usando Zatanna como “cheat code” para resolver as coisas, quando a “elimina” da aventura em uma cena tão simples e direta quanto brilhante.

No espaço, ninguém pode ouvir você gritar.

Axé.

PS1. Parafraseando o que o Bruce Wayne de Frank Miller explica em Dark Knight II, há uma desnecessária página de “DR” entre o Homem Elástico, Ralph Dibny, membro titular absoluto da segunda divisão da Liga, e o Homem-Borracha, aquele do desenho da TV.
Aqui concordo com Miller. Um apenas se estica; o outro não tem limites conhecidos para o que pode fazer com as próprias células. O que não diminui em nada o valor de Ralph, um dos pilares da Liga.

PS2. Queria entender melhor a consistente decisão de situar esta aventura em algum momento não apenas pré Crise, mas nos meados dos anos 70. Demorei pra entender no início, estava só achando estranho que os uniformes de Dick Grayson e Wally West fossem ainda os de adolescente. Mas, quando a Patrulha do Destino enfrenta a Turma Titã, e vemos que Mutano está com a Patrulha, é que entendi finalmente. Não há Cyborg ou Koriander, Jason Todd ou Timothy Drake, não há Nuclear ou Vixen ou Amanda Waller, nem Besouro Azul, Guy Gardner ou Gelo, nem Poderosa ou Caçadora. A história toda se passa na antiga Terra 1, em algum momento dos anos 70, antes dos Novos Titãs, antes da Crise nas Infinitas Terras.

PS3. Por favor, não me entendam mal. A arte de Alex Ross sempre é deslumbrante, ponto. Mas, sei lá porque, diferentemente de Marvels ou Reino do Amanhã, nesta minissérie não consigo ver o “movimento” nos quadros. Fica quase como uma fotonovela, com as imagens ali e os diálogos acontecendo. Claro que o problema deve ser meu, mas não podia deixar de comentar. Afinal, como diz Scott McCloud, a mágica dos quadrinhos, que a justifica como um tipo de arte distinta, indo além de um livro com ilustrações, ou de um catálogo de imagens com legendas, é justamente o que acontece por trás da página, o movimento que é sugerido pelos quadrinhos e que se completa entre um painel e outro, mas apenas na mente do leitor. Seja num Comics ou num Mangá, num álbum belga ou numa tirinha de jornal.

PS 4: Achei interessante que tudo que Brainiac faz aqui é roubar e aprimorar – absurdamente, ok – tecnologias de outros coleguinhas vilões. Ou seja, as IAs são poderosas, mas não conseguem criar. Ufa!

Liga da Justiça. “Justiça”.

Jim Krueger e Alex Ross, História; Alex Ross e Douglas Braithwaite, Arte

Justiça, n. 1-12. Panini, 2007 a 2008.
(Justice, #1-12. DC, 2005.)

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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