O Perfura Neve

Por Jacques Lob, História, e JeanMarc Rochette, Arte.

Será que o destino dos outros que continuam lá no fundo pra sempre não te importa… Agora que você conseguiu sair?

adeline Belleau

Este clássico francês dos quadrinhos pós-apocalípticos nem de longe é uma obra prima tão arrebatadora quanto o argentino Eternauta, mas é bem interessante.

A simples ideia de um enorme trem carregando os últimos sobreviventes de um planeta que se acabou num cataclísmico inverno bíblico é surreal. O fato de que eles viajam nesse trem sem destino e sem futuro, passivamente diante da catástrofe, nem nenhum tipo de ação que procure entender ou quem sabe tentar reverter a tragédia, é claustrofóbico e assustador.

Na verdade, o que move os personagens é apenas uma resiliência competitiva, que consiste em viver um dia após o outro cuidando para não perder a posição “social” conquistada, lutando sem regras para evitar que alguém tome o seu lugar.

Soa familiar? Tirando a parte de que não estamos dentro de um trem, é mais ou menos assim que estamos vivendo, nos afogando em microplásticos enquanto as tragédias se sucedem velozmente, sejam elas de origem ambiental ou das guerras.


A trama não empolga muito justamente por ser realista, acho. O nosso protagonista é um refugiado, um dos “fundistas” – os indesejados que invadiram o trem e se amontoaram nos vagões de carga no final do comboio. Um homem comum, que conseguiu uma improvável fuga desesperada, e uma vez que alcança os vagões mais privilegiados, não olha pra trás. Tudo que ele quer é se esconder entre os mais ricos e ficar lá quieto, esperando a morte chegar com a boca encarada cheia de dentes, mas pelo menos numa cabine confortável de um vagão “dourado”. Sem nenhuma pretensão de se tornar Capitão América, Guy Fawkes ou Che Guevara.

Exatamente assim como eu ou você.

Nisso reside uma frustração para o leitor à primeira vista, mas um grande mérito após refletirmos melhor. “O Perfura Neve” é uma óbvia “jornada do herói”, porém onde o nosso protagonista não assume este papel. Ainda mais depois que ele se entende com Adeline Belleau, uma mulher dos vagões “de classe média”, defensora dos diretos humanos dos “fundistas”. É como se Neo simplesmente se trancasse com Trinity num quarto em Zion, e deixasse a luta contra a Matrix pra outros guerreiros com mais disposição.

Mais uma vez, exatamente assim como eu ou você faríamos.

Axé!!

PS. A descrição de mundo, ou dos micro mundos, é fantástica. E há pelo menos uma contribuição espetacular e nauseante para o imaginário da ficção científica: o pedaço de carne que é mantido vivo e crescendo em um caldo fervente de nutrientes, apenas para ser “carneado” diariamente.

PS2. É bastante peculiar a forma como Lob e Rochette retratam os militares nesta obra. Primeiro, todos eles se parecem. De tal modo que só na minha segunda leitura foi que percebi que não eram o mesmo cara o tempo todo, mas na verdade três: o Tenente Zayim, o Sargento Briscard e o Coronel Krimson.

O cansaço e o desleixo destes “gendármes” é contagiante. Como um R2D2 as avessas, são estes militares que tornam a aventura possível – mas não por salvarem o dia seguidas vezes, mas sim por pura fadiga decisória. Apenas deixam as coisas rolarem pra resolver depois.

O fato de que eles são obrigados a dormir numa transição entre vagões, simplesmente porque não conseguem encontrar quem lhes abra uma porta para que sigam caminho com os prisioneiros rumo aos vagões do Presidente, é hilário.

O Perfura Neve

História, Jacques Lob; Arte, JeanMarc Rochette.

O Perfura Neve. Ed. ALEPH, 2015.

(Le Transperceneige. Ed. CATERMAN, 1983/1984.)

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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