X-Men. “E de Extinção”

Por Grant Morrison, história; Frank Quitely, desenhos; Tim Townsend, Dan Green e Mark Morales, arte-final

“Quando saí da cama esta manhã, não esperava exterminar quinze milhões de pessoas”.

Dr. Trask.

Uma coisa interessante para se refletir é a relação entre quadrinhos e outras mídias, como TV, cinema, e games, mais recentemente. Observando hoje em dia, parece haver uma verdadeira hegemonia dos quadrinhos no cinema, com os filmes de herói e suas CGI dominando as maiores produções, e consequentemente as maiores bilheterias.

E ainda assim quase sempre a conta fecha em prejuízo, mas isso é outra história.

Na verdade, nos últimos talvez 5 anos, já enxergamos um cansaço, não dos filmes de super-herói necessariamente, mas porque os filmes se tornaram previsíveis demais e às vezes simplesmente mal executados. E os filmes com os heróis dos games vêm trazendo mais frescor e lucros, com Mario, Sonic e, gostem ou não, Minecraft.

Mas mesmo antes desse cansaço, no “auge” da força dos quadrinhos como inspiração pra blockbusters, a situação já era muito enganosa. E é aí que tento argumentar um ponto.

A indústria dos quadrinhos é bastante barata frente a TV e ao cinema. É um campo de testes para personagens e narrativas muito mais livre, e não estou falando só de super-heróis. Então, é permitido muito de experimentação, e muito mais de erros e acertos que não chegam a lugar nenhum, enquanto aqui e acolá brotam fenômenos, seja rapidamente ou mesmo depois de décadas de lenta consolidação.

E aí, há um primeiro momento de auge, fortuna e popularidade, quando os personagens escapam dos limites dos gibis e passam a disputar o mundo das mochilas, capas de cadernos, canecas etc. É quando normalmente aparece também um desenho animado pra TV.

Isso parece espetacular á primeira vista, e é mesmo.
Mas tem prós e contras, obviamente.

Por exemplo, milhões de novos fãs conheceram os X-Men pelo desenho da TV nos anos 90. Uma série que consolidou no imaginário mundial a estética de Jim Lee e dos irmãos Adam e Andy Kubert. Mas essa grande vitória dos quadrinhos traz um problema também, ou talvez uma nova e maior responsabilidade.

Inicialmente, sempre temos – nós leitores e também a “indústria” – a esperança ingênua de que maior popularidade junto à sociedade em geral poderia trazer novos leitores ao mundo dos quadrinhos. E aí surge o problema da “cronologia” intransponível, e do eventual desequilíbrio de presença de alguns personagens, importantíssimos nos quadrinhos e às vezes muito menores ou até inexistentes nos desenhos e filmes.

E a tarefa de se adaptar para “corrigir” as incoerências entre quadrinhos, TV e Cinema, para que para não se estrague as novas fontes de lucros – canecas e mochilas inclusive -, sempre vai sobrar pros quadrinhos, logicamente. E isso não é necessariamente ruim, mas pode ser frustrante.

Isso porque o sucesso normalmente torna os editores mais temerosos, e daí conservadores nos limites que cobram dos roteiristas. Por exemplo, pra mim, que conheci Tony Stark numa época em que a Sra. Arbogast e Bethany Cabe davam as cartas, não vejo necessidade alguma de terem trazido Pepper Potts de volta ao núcleo das histórias. E, muito mais grave, boa parte dos leitores do Aranha jamais perdoará Joe Quesada pelo “reboot” que anulou o casamento com MJ e recolocou Peter na posição de solteiro nerd lascado onde ele estava nos anos 70.

Mas, por outro lado, ainda que os leitores raiz sempre prefiram reclamar, há contribuições importantes que vem das outras mídias. Nenhum satélite da Liga será tão legal quanto a Sala de Justiça, por ex. Batgirl foi uma criação da série de TV do anos 60, bem como Arlequina veio da série de desenho animado dos anos 90.


Grant Morrison é um escritor de difícil digestão. Não saberia explicar porquê, mas enquanto Alan Moore é erudito porém acessível e prazeroso como Mozart ou Vivaldi, Morrison parece um Frank Zappa. Você entende que é muito bom, que é revolucionário, mas nem sempre te pega.

Quando Morrison foi anunciado quando o novo grande nome nas aventuras mutantes, fiquei muito receoso. Isto porque Morrison sempre foi muito crítico ao novelão mutante, construído por Claremont e seus parceiros por tantos anos. Inclusive há uma “carta aberta” dele, duríssima, publicada aqui no Brasil como anexo em uma edição da Patrulha do Destino.

Se um dia achar essa edição nas minhas caixas, venho aqui e insiro algo dessa carta.

Morrison entrega várias rupturas espetaculares. Uma das mais importantes, e que se sustentou até hoje, foi o fim do casamento de Scott e Jean. Duro para os fãs, mas foi uma das melhores coisas que aconteceu.

Claro que soa contraditório, afinal segundos atrás reclamei do fim do casamento de MJ e Peter. Mas percebam, minha questão não é com a mudança em si. Cresci lendo aventuras onde a vida “acontecia” nos quadrinhos. Susan e Reed se casam, nasce Franklin, mais tarde perdem o segundo bebê; Parker termina o segundo grau, depois a faculdade, entra no doutorado, e personagens entram e saem da sua vida; Karen Page larga Matt Murdock pra ir atrás de seu sonho, e quando volta a Nova York é uma pessoa radicalmente diferente.

É a vida andando pra frente, aos trancos e barrancos. É diferente de trazer Pepper de volta, ou cancelar o casamento só pra manter Peter congelado no tempo como jovem adulto.

Nesse sentido, não preciso sequer gostar de Emma Frost. Mas o relacionamento dela com Scott é crível, adulto, livre das amarras e romantismo de um romance perfeito que vinha desde a adolescência.

Na mesma linha, também sempre vou achar uma injustiça cruel quando colocam Peter e Gwen como um casal feliz em algum lugar do multiverso. Sinto informar, mas mesmo se Gwen tivesse sobrevivido, ela não necessariamente seria a parceira do Aranha pro resto da vida. Sempre vou estar na torcida por MJ Watson.


Uma outra ruptura importante, hoje em dia quase esquecida após tanto tempo, é que é justamente Morrison quem abre as portas da Mansão Xavier para mutantes “feios” ou “inúteis”. Sim, pois uma coisa deveras cruel da gestão Xavier da questão mutante é que ele recruta sempre dentro de uma elite esteticamente aceitável – com raríssimas exceções, como Noturno e Jono “Câmara”.

São mutantes quase sempre “humano-normativos”: podem passar por humanos naturalmente, sem maiores dificuldades, desde que aprendam a controlar seus poderes e evitar crises de auto-regulação. Os mutantes feiosos ou com poderes inúteis, como os Morlocks, ficavam longe da mansão, morando literalmente nos esgotos, até serem chacinados por algum grupo de caça-mutantes.

Aplausos então pro Morrison nesse quesito, que implementou algo que veio atender justamente a uma de suas críticas, tornando a Mansão uma instituição aberta à toda criança e adolescente mutante. Para educação, socialização e, claro, proteção.


Mas, finalmente, o ponto que me fez buscar reler essa fase do Morrison a frente dos mutantes tem a ver com a relação entre quadrinhos e outras mídias, que se revela principalmente naqueles momentos em que parece que os quadrinhos, vitoriosos, dominaram cinema e TV.

Entre uma ruptura autoral e outra, Morrison entrega várias coisas que me parecem “influência do filme” ou, pior, exigência dos editores.

O primeiro filme dos X-Men não usou uniformes coloridos – Hugh Jackman vestiu o colante amarelo nos cinemas apenas outro dia desses, mais de 20 anos depois. O visual couro Matrix foi a estética mutante nos filmes, e é a primeira coisa que os quadrinhos “copiam” do cinema.

Inclusive os nossos heróis se revelam críticos aos colantes coloridos, assim como Scott no cinema.

“O que você queria?
Um colante amarelo?”


Uma outra coisa que pode parecer até surpreendente hoje em dia, mas a primeira vez em que a Escola Xavier se apresenta de fato como uma escola, com centenas de alunos, é no cinema. Nos quadrinhos, a mansão nunca teve mais que 5 ou 6 adolescentes entre seus moradores, e a grade de horários e disciplinas tinha muita Sala de Perigo e nada de História ou Geografia. É Morrison que vai então tornar a Escola Xavier uma instituição mais próxima do que era no cinema, e vai além, trazendo várias crianças esteticamente “disgusting”.

Na época, achei que ele estava exagerando na coisa “freak show”. Hoje dou muito mais valor, tem um recado social e político ali bem importante. E, mais adiante neste mesmo período Morrison, o desenvolvimento do casal adolescente Bico e Angel é maravilhoso em seus dramas reais.

A terceira entrega aos editores, me parece, é o Extermínio. Por alguma razão que ainda me escapa, os editores da Marvel em vários momentos tiveram medo dos mutantes se tornarem poderosos e numerosos demais, como se em algum momento chegasse o dia em que todos os outros heróis não mutantes viriam apenas a reboque. De modo que periodicamente são implementados extermínios. O “Massacre de Morlocks”, este “E de Extinção”, o “chega de mutantes” de Wanda Maximoff…

Cassandra Nova, sei lá com que motivações além do puro prazer sociopata, extermina a população do país mutante Genosha em minutos. Resolvendo uma dor de cabeça para os editores, parece.

Para executar tal tarefa, sequestra um cidadão comum, um pobre dentista que tem o azar de ser sobrinho do célebre criador dos Sentinelas, Bolívar Trask. Após se apropriar das impressões vocais, digitais e genéticas do rapaz, Cassandra se torna também “herdeira” dos Sentinelas, e assume o comando de uma safra particularmente poderosa e selvagem.

Na verdade, as reais motivações de Cassandra – e de Morrison – se revelariam mais adiante.
O “E de Extinção” era só o começo.

Axé!

PS: Apontar o “couro Matrix” nos figurinos não é apenas uma das minhas insistência vazias. Em vários sentidos – técnicos, visuais, estéticos e narrativos – foi Matrix quem demonstrou para Hollywood que filmes de super-herói ainda valiam a pena, e mereciam uma nova chance após o fiasco dos Batmen de Val Kilmer (mamilos!!) e George Clooney.
Ou você não percebeu que Matrix é (também) um filme de super-herói? Afinal, é um filme onde os caras preferem lutar kung fu em velocidades supersônicas ao invés de simplesmente se metralharem ou se explodirem.

PS2: Joe Kelly e Ian Churchill, que pilotavam na mesma época um outro título mutante, também implantam por lá o “couro Matrix” nos figurinos. Já Claremont e Larroca não pareciam muito preocupados com isso na sua respectiva revista mensal, “X-treme X-men”.

PS3: É neste arco de Morrison e Quitely que ocorre a primeira aparição da popular Míssil Adolescente Megassônico – a detentora do melhor nome de guerra de toda a indústria dos quadrinhos.


PS4: Que seguradora seria capaz disso, Scott?

X-Men.“E de Extinção”

X-Men, 9 e 10. Panini, 2002.
Publicação original: “New X-Men”, #114-116. Marvel, 2001.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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