Sobre mim

Sejam Bemvindos

Em obras, sempre.


Já há alguns poucos anos, fui numa dessas cerimônias de Formatura da pré-escola. Sim, algo que não existia até outro dia, e que achava um exagero até que chegou a minha vez de ir nas respectivas formaturas de meus sobrinhos e filhos.

Enfim, vocês todos conhecem bem o roteiro – se não conhecem ainda vão conhecer: diretores e coordenadores fazendo discursos inversamente proporcionais ao estado de sua autoestima, enquanto as professoras, como sempre, fazendo o possível e o impossível para manter as crianças e as famílias animadas e entretidas.

Aí tem a hora em que cada criancinha entra pra pegar seu canudo.

Enzo, torce para o PSG, gosta de sorvete de chocolate, quando crescer quer ser astronauta do Elon Musk.

Valentina, torce para a Seleção Brasileira, gosta de brócolis, quando crescer quer ser atriz do Disney Channel.

E por aí vai.

Cá entre nós, meu sobrinho arrasou quando chegou a vez dele, dizendo que gostava era da NBA e de pizza, e que queria ganhar na Telesena pra ajudar a avó.

(Aplausos)


Impossível estar num contexto desses e não tentar se lembrar de si mesmo, naquela idade.

Aí fiquei pensando né, o que eu responderia? Sobre futebol, provavelmente nada. Só comecei a gostar de futebol um pouco mais tarde, com os cruzamentos de Renato Gaúcho para gols de Casagrande nas eliminatórias pra Copa de 1986. A partir daí, me tornei um Botafoguense um tanto hesitante, até os gols de Josimar na Copa me consolidarem como alvinegro. O título mais importante pra mim, logicamente, é o de 1989.

Sobre “o que vc quer ser quando crescer”, pensei na hora: Cientista!! Não um físico, ou químico, ou biólogo. Mas um cientista como o dos quadrinhos e filmes, que sabe de tudo, capaz de consertar naves, fazer cirurgias cardíacas em aliens, e clonar dinossauros.

Afinal, adorava o Cosmos do Carl Sagan. E dinossauros. E graças aos gibis, palavras como “radiação”, “mutação” e “interdimensional” já eram comuns pra mim. E também tinha a Série Clássica. E, em certo sentido, embora tenha enveredado pelo caminho de Humanas, tenho lá um pé no mundo acadêmico e da pesquisa científica, embora sem jalecos brancos e microscópios, nem tubos de ensaios ou bicos de Bunsen.

Já ouvi falar que o grande Florestan Fernandes, “apesar” de cientista social, trajava um jaleco branco pra enfrentar seus desafios na biblioteca.

Apenas muito tempo depois, anos até, observando meus filhos às voltas com figurinhas e álbuns, me lembrei da verdade.

Jornaleiro. Quando criança pequena eu queria ser jornaleiro.


O caminho do portão da casa da minha avó até a banca de jornal 200 metros e uma esquina adiante é um dos setores mais visitados da minha cidade onírica à lá “Inception”. Atravessava o quintal cimentado, na verdade uma garagem, até o portão. Atravessando a rua para a outra calçada, chegávamos a uma daqueles gigantescos cinemas de rua, que foram todos sem exceção metamorfoseados em templos evangélicos ao longo dos anos 90. Uma vez então já do lado certo da calçada, ia até a padaria/confeitaria, que ficava na esquina. Dobrando a esquina, acho que tinha um ou dois comércios – talvez um açougue -, e aí finalmente, a banca de jornal.

Sim, a casa da minha vó ficava praticamente em frente ao cinema. Era perfeitamente possível ouvir Olivia Newton-John e Travolta e cantar junto as cenas de Grease.

A ideia de trabalhar como Jornaleiro era extremamente sensacional para o meu cérebro infantil. Naqueles tempos, a banca de jornal era onde eu ia com meus pais, tias ou avós, comprar um gibi – Heróis da TV, Capitão América, Homem-Aranha, Disney Especial de 255 páginas, Zé Carioca enfrentando a Anacozeca, tinha tb o Spectreman.

Eram muito menos títulos do que tem hoje, ou do que tinha nos anos 90. Mas era muito mais do que meu pessoal dava conta de comprar pra mim. E tinha muita coisa além dos gibis: os fascículos semanais da enciclopédia Conhecer, as palavras cruzadas Picolé, a Ciência Ilustrada – ancestral distante da Superinteressante.

Não faz ideia do que é fascículo, xóven? É uma coisa realmente obscura, ainda mais que a fita cassete.

Então, uau, trabalhar na banca significaria que eu poderia ler. Que eu poderia ler TUDO. Que eu poderia ler muito além da minha capacidade de comprar. Ok, não tornaria minha coleção maior. Mas, nossa, imagine poder ler TUDO que chegasse na banca.


Não lembro agora em qual momento tive a desconexão com essa fantasia maravilhosa. Talvez seja como aquele meme né “um dia vc saiu pra jogar bola com seus amigos na rua pela última vez e nem percebeu”.

O que me lembro é que a quantidade de títulos começou a aumentar rapidamente. Superaventuras Marvel, Espada Selvagem de Conan, as revistas da DC…ficou inviável manter um ritmo decente de compras, e não adiantava comprar só uma né porque as histórias se conectavam. E eu comecei a me interessar por discos também… Enfim, lembro de acompanhar um pouco a Crise nas Infinitas Terras, mas quando a Marvel lançou as Guerras Secretas eu já estava fora.


Meu reencontro com os quadrinhos foi no começo dos anos 90, quando comecei a faculdade. O ponto final (ou inicial?) do ônibus que eu pegava era colado num grande sebo a céu aberto, empilhado em caixas de papelão e de maçã, que vendia gibis de Heróis e da Turma da Mônica, livrinhos de faroeste Stefania, e muitas Sabrinas e Biancas.

Vendo as pilhas de gibi, vi um dia que o Hulk tinha ficado cinza. Comprei o gibi. E neste mesmo gibi do Hulk, conheci a nova equipe da Escola Xavier, as crianças dos Novos Mutantes – desenhados enlouquecidamente pelo Bill Sienkwiecz.

O cara desse sebo tinha uma regra. Traga seus gibis ou Sabrinas, troco 2 por 1. Ou era 3 por 1, sei lá. Percebi que as meninas que pegavam ônibus por ali compravam as Sabrinas pra ler nas longas viagens. E quando juntavam algumas, iam lá e trocavam por outras que ainda não tinham lido.

Comecei a fazer o mesmo. Tinha tanta coisa pra ler e reencontrar e atualizar. Comprava, juntava e trocava. Comprava, juntava e trocava. Alguns poucos eu mantinha pra minha coleção, que praticamente já não existia mais, depredada por mim mesmo que emprestava pra quem não devolvia.

Daí, voltei a comprar alguma coisa nova na banca também. E, bem, aqui estamos.

AXÉ.

PS. Interessante isso de escrever né, porque você começa e outras ideias e lembranças vão aparecendo. Essa banquinha de revistas e livros perto do meu onibus é muito mais importante do que eu imaginava. Sem ela, e sem a regrinha 3 por 1, talvez eu não voltasse aos quadrinhos. Devo a esse cara algo bastante – da mesma gratidão que tenho pelo meu jornaleiro de infância.