Demolidor.  “Nas Garras do Rei do Crime”

por Frank Miller, história e desenhos; Klaus Janson, arte-final; Glynis Oliver, cores

“O amor de minha esposa tinha conseguido me regenerar. É uma pena que agora eu tenha que matar por esse mesmo amor. Se Vanessa estiver ferida, a cidade vai assistir à guerra de quadrilhas mais sangrenta de todos os tempos.”

wilson fisk, o rei

Jamais houve, e jamais haverá, um gibi como Superaventuras Marvel. Ao invés de fazer como nos comics originais norte-americanos, “cada revista um herói”, a Abril tinha apostado, na sua “Heróis da TV”, em um modelo de revista mensal com cara de almanaque, onde se liam aventuras de um “mix” de personagens. Isto era, por exemplo, diferente do que a própria Abril apresentava no seu outro gibi mensal – Capitão América -, do que fizeram antes Ebal e Bloch, e do que ainda fazia à época a RGE, com as suas revistas do Aranha, do Hulk e dos 4 Fantásticos. Estas seguiam o modelo norte-americano – embora as da RGE e a do Capitão América colocassem mais de uma história em uma revista de 52 páginas, ao invés das 32 dos comics originais.

Se bem que agora escrevendo me lembrei que a RGE tinha também uma revista com vários personagens, o “Almanaque Marvel”, onde bimestralmente compareciam NOVA, Mulher Aranha e X-Men, dentre outros. Bah. Fiquei confuso.

Bom o que interessa é que Superaventuras Marvel  seria mais uma aposta no modelo “mix”. A queridíssima SAM trazia o que de melhor estava disponível na Marvel, ali na passagem dos anos 70 pros 1980. Mensalmente, Conan; Pantera Negra; Luke Cage; e Dr. Estranho se revezavam com o novíssimo e revolucionário Demolidor de Frank Miller. Um pouco mais tarde, chegariam ainda os X-Men e a Tropa Alfa. Um elenco insuperável.

Enfim, vamos falar muitas vezes aqui de histórias lidas pela primeira vez em SAM.


Hoje vamos conversar sobre a volta do Rei do Crime. Uma daquelas obras-primas que um jovem Frank Miller “enfileirava” escrevendo e desenhando o Demolidor, edição após edição.

Como alguns de vocês já devem ter ouvido falar, a revista Daredevil estava em extinção lá no EUA. Após trazê-lo de volta de uma temporada na Califórnia com a Viúva  Negra, os roteiristas não estavam tendo muito assunto com o Demolidor. Vendas despencando, a revista já tinha sido rebaixada para “bimestral”, o cancelamento definitivo era questão de tempo. Aí resolveram dar oportunidade para um cara que estava por ali, rondando à porta, tentar mostrar o seu talento como desenhista. Na terceira edição, Frank já assumiria também os roteiros.

traço dinâmico Frank Miller luta Mercenário Demolidor
traço dinâmico Frank Miller luta Mercenário Demolidor

Em pouco tempo, Frank Miller não só evitou o cancelamento como levou Daredevil ao primeiro time. Seu traço tinha uma dinâmica única pra época, e seus roteiros combinavam máfia com ninjas, naquela mesma Nova York de Woody Allen, só que observada a partir das docas e da sarjeta. Já nos apresentaria Elektra logo de cara, depois o Tentáculo – e meio que transformaria o Demolidor um ninja urbano, mais do que um “herói da ciência”. E ainda tinha o “núcleo cômico”: Tucão & Mongol.  E as vidraças do Bar da Josie.

E a torre imponente, que já surge aqui antes mesmo de se tornar a base de Wilson Fisk.

Entre tantas outras coisas, Frank redefine o submundo do crime em NY. Pelas suas mãos, o crime comum e seus vilões deixam de ser uma confusão caótica, com vários “chefes de quadrilha” disputando espaço toda semana, para se tornar uma máquina eficiente e eficaz comandada por um único homem. Por um Rei.


Naquele momento, coexistiam vários “chefões” do crime. Cabelo de Prata e Cabeça de Martelo eram habitués das aventuras do Aranha, assim como o próprio Wilson Fisk, chamado em traduções anteriores de “O Careca”; havia também o Morgan, manda-chuva do Harlem, que aparecia então nas histórias do Capitão América & Falcão; e mesmo o Demolidor estava as voltas com um tal “Sr. Slaughter” quando Frank Miller chegou – e vários outros que nem me lembro agora.

Frank Miller inicialmente nos apresenta um Wilson Fisk “regenerado”, auto-exilado no Japão. Curtindo uma vida confortável proporcionada pelos lucros passados do crime investidos em renda fixa e ações pagadoras de dividendos – imagino eu -, estava totalmente desinteressado em um retorno aos gramados. Mas então ele começa a negociar o que hoje chamaríamos de uma “delação premiada”: entregaria ao FBI arquivos comprometedores que colocariam muitos dos seus antigos sócios – e também boa parte dos rivais – na cadeia, em troca de perdão para os seus próprios crimes – ou algo assim.

Rei do Crime no japao Frank miller

Tal possibilidade deixa em pânico a comunidade criminosa em NY, e os chefões resolvem matar o Rei antes que ele possa entregar os arquivos. Obviamente, a operação não dá certo, a santa paz reinante no Lar japonês de Fisk é conspurcada, e ele retorna a Nova York, sedento de vingança.

Em pouco mais de 70 páginas, Frank Miller revoluciona o personagem Rei do Crime, e o estabelece como um dos personagens mais poderosos, astutos e competentes do Universo Marvel – que é então, de certo modo, também reconfigurado de modo definitivo.

Pois  o Universo Marvel nunca mais pôde prescindir deste pilar que é Wilson Fisk.

Axé!

  • PS: Assim como Amy nos ensina em Big Bang Theory, a respeito do filme “Os caçadores da Arca Perdida”: nada, absolutamente nada do que nosso herói tenta fazer aqui dá certo. As ações do Demolidor não tem nenhuma influência sobre o desenrolar dos acontecimentos ou na conclusão dos planos de Fisk.
  • PS2: É desta aventura uma das maiores cenas de todos os tempos: “A mosca é de graça.”
Mercenário cena clássica a mosca é de graça
  • PS3: É ou não é curioso que a historia que conta o retorno triunfante do Rei do Crime tenha sido publicada em Daredevil #171 ?

Demolidor.  “Nas Garras do Rei do Crime”

Superaventuras Marvel, 8 e 9. Ed. Abril,  1983.
Publicação original: “In the Kingpin’s Clutches”
Daredevil #170, #171 e #172 Marvel, 1981.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

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