por Len Wein, história; Ross Andru, desenhos; Jim Mooney e Mike Esposito, arte-final.
“Ela está resistindo, moço, sem a sua ajuda. Para alguém tão preocupado, demorou um bocado a chegar.”
mary jane watson
É comum hoje que surjam críticas a uma novela ou a um filme que de repente se veja preso numa inconsistência “tecnológica”. É complicado, por exemplo, quando alguém ancora uma parte importante da história em uma “pasta de documentos” – sim daquelas dos tempos astecas com papel dentro -, ou precisa manter subcelebridades influencers da política e da moda presas numa mansão em uma ilha grega sem acesso a celulares, exceto até o momento em que uma notificação de celular será convenientemente central para a trama – né Netflix?
Luis Fernando Veríssimo escreveu uma crônica, já há muito tempo atrás, quando os celulares eram apenas telefones e não pontos de entrada para a internet, suas redes e seus apps, reclamando que já havia perdido centenas de excelentes ideias para crônicas ou contos, porque simplesmente elas não sobreviveriam à existência de um celular e a mera possibilidade de um telefonema bem-sucedido.
Bem, uma das subtramas dessa aventura do nosso amigão da vizinhança é justamente uma dessas coisas que se perderam no tempo. Entre uma e outra cena de luta do Aranha, somos colocados na adorável companhia da inigualável Mary Jane Watson, que vai ficando cada vez mais pistola com o fato de que seu namorado Peter não atende o telefone em casa, nem no trabalho, nos lembrando a todos como era difícil a vida na era dos telefones fixos e orelhões, e como era mais fácil para os roteiristas estabelecerem um desencontro ou mal-entendido.

Era também uma época mais fácil para um certo alienígena bonitão trocar seu disfarce de quatro olhos e terno pelo traje azul com capa vermelha – sempre dentro das há muito tempo extintas cabines telefônicas.
Ah, e por que Mary Jane estava procurando Peter desesperadamente? Bem, porque Peter tinha largado ela no hospital, cuidando da Tia May, que por sua vez tinha acabado de ter mais um dos seus inúmeros infartos ao agredir um policial durante um protesto político.
Pois é, nossa cândida Tia May estava na linha de frente de um protesto que exigia mais respeito aos direitos dos idosos. Quando um guardinha tentou freá-la, ela partiu pra cima do policial, e aí passou mal.
Eu não sei dizer agora se minha memória está influenciada por algumas boas histórias da época – esta aqui inclusive – mas desses tempos trago a impressão que Tia May tinha infartos semanais. Recordista isolada no Guiness como a personagem que mais sobreviveu a infartos em toda a literatura ocidental. O que nos garantia cenas adoráveis, sem dúvida.

Sabendo o que sabemos hoje sobre o sistema de saúde dos EUA, não entendi muito bem em qual hospital Tia May teria atendimento – talvez a pensão do Tio Ben lhe garantisse um seguro-saúde? Bem, o ponto é que Peter larga Mary Jane e sua respectiva tia Anna lá no hospital, de plantão com Tia May, e vai ganhar a vida. O que não deixa de ser interessante do ponto de vista de como nós, homens legais e preocupados como Peter, lidamos com o cuidado e a atenção, inda mais na hora em que aperta e a coisa fica grave.
Este arco de histórias traz, do modo épico que os limites dos gibis da época permitiam, a volta do Duende Verde – o maior inimigo do Aranha. Neste ponto, já tinham se passado alguns anos desde o enfrentamento mais dramático com Norman Osborn, em que Gwen Stacy é morta ao ser jogada da ponte, e depois o próprio Norman morre atravessado pelo seu morcego planador. O Duende Verde quando eu comecei a ler os gibis já era Harry Osborn, um Duende menos estrategista e mais insano – a ponto de Ben Urich achar que foi Harry, e não Norman, quem matou Gwen.
Ben diz isso com todas as letras em alguma história do Aranha vários anos adiante.
Em paralelo a trama hospitalar de Tia May, que também é a trama telefônica de Mary Jane, vemos que o consultório do psiquiatra Bart Hamilton, que conduzia o tratamento de um instável Harry Osborn, surge totalmente destruído. É a senha para sabermos que o Duende está de volta!
Peter segue imediatamente para o apartamento de Harry, que neste momento das histórias, dividia apartamento não mais com Peter, mas com outro rapaz da turma, o Flash Thompson. O Aranha chega a tempo de encontrar Flash desacordado após ter tentado enfrentar o Duende, e começa então uma luta épica entre um ágil e saltitante Aranha contra um Duende Verde a pleno vapor, voando em seu morcego a jato.

Isso tudo, dentro da sala do apartamento.

A partir daí, as tramas e subtramas seguem, com cenas do Aranha e o Duende se enfrentando em vários lugares, a maioria tão amplos e largos quanto a sala do apartamento de Flash, se alternando com cenas do hospital, onde uma cada vez mais indignada Mary Jane fica segurando todas as pontas, e certamente pensando se valeria mesmo a pena continuar amarrada num traste como o Parker.
O grande momento, entretanto, acontece apenas na última cena da penúltima história do arco:

Ora, se era Harry que está preso esse tempo todo, quem está usando a armadura do Duende Verde?
spoiler de 40 anos a seguir
Sim, amiguinhos, muitos anos antes de Hannibal Lecter se deliciar com o “estilo de vida” de seus pacientes psicopatas e decidir chutar o balde, o nosso psiquiatra Bart Hamilton aproveitou a proximidade com seu paciente Harry para pegar as chaves dos esconderijos secretos e sair voando por aí num poluente morcego a jato.
Se escrever um plot twist desses em 1977 não é sensacional, então não sei o que seria.
Tá bom, eu sei sim. “Luke, I am your father.” Mas, poxa, guardadas as devidas proporções, a história é boa vai.
Axé!
PS: Len Wein foi um roteirista muito interessante. Será lembrado principalmente por duas coisas: ter lançado Wolverine numa história do Hulk; e, pouco mais tarde, ter reunido os multiétnicos Novos X-Men que enfrentaram Krakoa.
PS2: Dificilmente eu lembraria de Ross Andru como um grande desenhista caso tivesse que fazer um top5 ou top10 hoje em dia. Mas relendo essas páginas agora, me dei conta de como ele era uma enorme influência neste menino de 9 anos. A anatomia dele era muito boa, não tão realista quanto de Neal Adams ou tão esteticamente bela quanto de John Buscema. Mas reconheci instantaneamente várias das suas poses de luta – certamente muitas das minhas lutas envolvendo Falcon e Torak foram coreografadas levando em conta as cenas de Ross Andru.
PS3: Sim, eu sei que Flash Thompson foi, décadas mais tarde, convocado a vestir o Venom a serviço do exército do EUA, trabalhou até numa equipe do Capitão América, e até tomou uns amassos e muito mais da Valkyria de Asgard. Apenas me recusei a citar essa referência cruzada lá em cima.