Capitão América. “Quando Um Herói Enlouquece”

por Steve Englehart, história; Sal Buscema, desenhos; John Verpoorten, arte-final

“Muitos já tentaram destruir o Capitão América por meios físicos, mas somente eu poderei atacá-lo através da mente.”

dr faustus

Naquele começo dos anos 80, este então garoto de 7 quase 8 anos começava a ler quadrinhos de heróis. Meu primeiro gibi foi um Heróis da TV 16, com um assustador Motoqueiro Fantasma na capa, e uma história de Shang Chi versus Velcro, acho. Logo depois, um Almanaque Marvel em que logo na primeira vez em que lia os X-Men, eles enfrentavam a hoje clássica Morte do Pássaro Trovejante. Na revista do Hulk, o Verdão estava às voltas com o micro planeta de Jarella, enquanto na revista do Aranha, Peter e Mary Jane enfrentavam Duendes Verdes e o Rocket Racer. Nas revistinhas da EBAL, que então publicavam as aventuras da DC – e que eram super difíceis de encontrar -, coisas absurdas como o Guerreiro de Mike Grell  e o Lanterna Verde/Arqueiro Verde de Dennis O’neil e Neal Adams – responsáveis também por aquele Batman que dirigia um Chevy Corvette. 

Caramba! E ainda nem tinha chegado a Superaventuras Marvel.

Sei que tem muita nostalgia nisso, afinal eram as primeiras histórias que eu lia. Mas também, era uma fase espetacular que estava disponível pra nós nas bancas. Muito mérito nisso tinham os editores e gestores das linhas de heróis de cada editora, com destaque para o hoje mitológico Helcio de Carvalho: os caras simplesmente publicavam o que havia de melhor, independente de ter sido publicado originalmente em 1968 – caso das histórias do Surfista Prateado – ou a poucos meses antes, caso dos X Men de Claremont/Byrne e do Demolidor de Frank Miller

Então, realmente, era covardia. Acessávamos todos os meses gibis com o que Marvel e DC tinham produzido de melhor em um período de quase de 20 anos. E num mundo sem internet e “spoilers”, que maravilha !!

Bah e ainda tinha o Fantasma, o espírito que anda, que nessa época casou com sua respectiva Lois Lane, a Diana Palmer, e teve os gêmeos Kitt e Heloise, enquanto enfrentava um ditador que era a cara do Idi Amin.


Conheci o Capitão América, portanto, quando ele era ESTE Capitão América, muito diferente do que está no MCU ou nos gibis posteriores, embora, talvez paradoxalmente, muita coisa que se tornaria cânone, a ser utilizada inclusive nos filmes, viria daqui.

Primeiramente, este Capitão América não é nem Vingador nem Agente da SHIELD em tempo integral: ele tenta ter uma vida civil, embora obviamente seja difícil conciliar a vida de herói com os empregos que arruma.

Este Capitão não é exatamente um combatente do crime comum, como será o Demolidor de Frank Miller. Mas é um herói das ruas de Nova York, enfrentando o tempo todo super vilões uniformizados de baixo escalão, numa pegada parecida com a do Aranha, por exemplo.

É desta época também onde se estabelece e se desenvolve a amizade e a parceria com Sam Wilson, o Falcão – que nessa época sequer tinha suas asas; e o namoro com Sharon Carter, a Agente 13. 

E esta fase, bem mais à frente, seria concluída com um interessante diálogo, implícito pero no mucho, com o escândalo de Watergate – que leva Steve inclusive a abandonar as cores da bandeira e o escudo.

E, importantíssimo! – embora eu já nem me lembrasse disso até reler estas histórias agora: este Capitão é superforte! Não num nível Hulk ou Thor, lógico. Talvez algo próximo da superforça do Aranha. Mas tinha esse lance curioso.

Umas duas revistas antes, Capitão e Falcão enfrentaram uma quadrilha de supervilões de 3a divisão: Porco-Espinho, Homem-Planta, Enguia e Víbora. O tal Víbora usava umas agulhas com veneno nos punhos, e injeta o Capitão. Milagrosamente, o veneno do Víbora reage com o supersoro que está na corrente sanguínea de Steve desde 1941, e – tcharãã!! – lhe confere superforça.

Olhando esta fase toda em conjunto, tem um contraste interessante. É um Capitão mais forte do que nunca fisicamente, porém gradativamente mais frágil psicologicamente, até chegar ao clímax em que ele abandona o uniforme. É marcante não só para mim: Mark Waid escolheu justamente este Capitão, superforte e deprimido, para integrar a equipe nas suas belas histórias dos Vingadores Eternamente.


Bom, até aqui falei bastante dessa fase como um todo, que talvez até gere outros posts adiante. Mas, focando especificamente nesta aventura, vemos no início o Capitão tendo que administrar DRs frequentes com seu amigo Falcão, que se sente inferiorizado por não ser mais tão útil ao lado de um cara com superforça. Logo em seguida, descobre que sua namorada, Sharon Carter, sumiu sem deixar pistas além de um bilhetinho, todo azul, com seus garranchos, pregado na porta.

O que parece uma trama despretensiosa terminará por nos apresentar a uma das personagens pilares do que viria a ser o MCU, 40 anos depois.

Barbearia da SHIELD

Steve resolve primeiro ir à SHIELD, em busca de informações. Nesta época, uma das principais bases ficava embaixo de uma simpática barbearia. Em seguida, ficamos sabendo que Sharon está internada em um hospício, o mesmo onde já estava uma misteriosa mulher, que parece ser bastante importante para ela. E tudo, enfim, integra um plano do maligno Dr. Faustus, um vilão que queria vencer o Capitão detonando sua mente. 

Dr Faustus

Ao tentar invadir a fortaleza disfarçada de sanatório, Steve e Sam são capturados. E começam a enfrentar desafios desenhados sob medida para estilhaçar a mente de Rogers: batalhas contra soldados alemães; seus piores inimigos, como Caveira Vermelha e Barão Zemo, o pai; e até um fantasmagórico Bucky.

Para sorte do Capitão, entretanto, o Falcão estava junto, e como nenhuma dessas coisas dialogava com quaisquer dos seus traumas, Sam lidera a travessia e a superação de cada um dos desafios.  O que espero ter contribuído pra elevar sua autoestima.

Da janela no alto de uma torre, ao ver o Capitão envolvido em lutas que pareciam ser as mesmas da época da Segunda Guerra, a tal mulher misteriosa grita, acordando do seu estado catatônico. É então que se revela, pela primeira vez em todos os tempos e mídias, a nossa querida Peggy Carter. 

Primeira aparição Peggy Carter

Nos filmes, Peggy já estava presente desde os primeiros dias de Steve no Projeto Renascimento, antes mesmo dele se tornar o Capitão América. E quando Steve desaparece, Peggy se torna um pilar do MCU – pois é ela que vai fundar a SHIELD nos anos 50, assumindo o papel que nos quadrinhos é de um Nick Fury combatente veterano da Segunda Guerra.

Nos quadrinhos, ao contrário, é Sharon que surge primeiro. E é somente nesta aventura, publicada uns oito anos depois que os Vingadores encontram o Capitão congelado, que somos então apresentados a uma senhorinha, quase idosa, que passou décadas esperando o Capitão voltar pra casa – enquanto perdia toda a sua sanidade mental.

Bem, conferindo aqui agora nas Marvelpedia, vi q não é bem assim. Peggy Carter aparece pela primeira vez como membro da Resistência Francesa em uma história curta publicada em 1965, que se passa nos tempos da Segunda Guerra. Escrita por Stan Lee e desenhada por Jack Kirby. Não sei se essa história foi publicada no Brasil…

Dr Faustus ainda causaria muito dano na vida de Steve, principalmente anos depois quando manipula o Capitão dos anos 50 numa trama complicada. Mas isso é assunto para outro dia.

Axé!

PS. O Capitão é descongelado pelos Vingadores apenas 20 anos depois do final da Segunda Guerra. Isso permitia uma certa dinâmica que se repetia nas histórias : o Capitão era um jovem de 20 e poucos anos cercado de amigos “coroas”, Nick Fury, por exemplo, era um parrudo cinquentão. Com o passar do tempo, isso ficou insustentável, e aí coisas tiveram que ser escritas retroativamente: Fury, por exemplo, passou também a não envelhecer, devido a um tal Soro do Infinito; nas revistas dos anos 2000, o reencontro com os amigos veteranos do Comando Selvagem já não é mais nos botecos, mas em asilos para idosos. Finalmente, nos filmes, o reencontro é com uma Peggy Carter já na casa dos 90 anos. 

PS2. O título de uma das histórias deste arco foi traduzida/rebatizada pelos meninos da Abril como “O Passageiro da Agonia”. Vocês que são xóvens e tem menos de 50 anos nunca pegariam a referência, mas é uma homenagem a um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos, sucesso de bilheteria nos anos 70: “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”.

PS3: No filme, o franzino voluntário Steve Rogers é recebido na base do Projeto Renascimento por uma Peggy Carter disfarçada. Nos gibis, a cena acontece exatamente do mesmo jeito, exceto pelo fato que não é Peggy a agente de plantão. 

PS4. Esta cena, por Roger Stern e John Byrne, foi publicada em Captain America #255, comemorando em 1981 os 40 anos de criação do herói. Bah, e já se passaram outros 40 anos desde então…

Capitão América. “Quando Um Herói Enlouquece”

Capitão América, número 32. Ed. Abril, janeiro de 1982.
Publicação original: “This Way Lies Madness.”
Captain America and Falcon, #161 e #162. Marvel, 1973.

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

Leave a comment