por Steve Englehart, história; Sal Buscema, desenhos; Vince Coletta e Frank McLaughlin, arte-final
“Em poucos dias, consegui fazer uma nação inteira acreditar num estranho.”
quentin harderman
Não li essa saga mais recente do Império Secreto, em que a premissa é que o Capitão América é um agente do mal, infiltrado desde sempre. Então, não sei mesmo se é boa, se fixou algo pra ser considerada no cânone principal, ou se serve como linha multiverso, etc. O que vamos lembrar aqui é o primeiro arco de histórias com a organização Império Secreto, publicadas originalmente há quase 50 anos.
Em 1973/74, na boa fase produzida por Steve Englehart & Sal Buscema, o Capitão tinha adquirido superforça; estava em crise de relacionamento com seu camarada Falcão; e tinha reencontrado seu antigo amor da época da Guerra, Peggy Carter.
E foi então que um marketeiro chamado Quentin Harderman começa uma campanha na mídia para desacreditar o Capitão América. Quem lhe deu o direito de vestir a bandeira do país? Se ele é um herói, porque atua à margem da justiça? Nem sequer sabemos seu real nome ou conhecemos seu rosto, pois ele se esconde atrás de uma máscara!
Algum filósofo já disse, não lembro agora se Wilson Fisk ou Norman Osborn, que as melhores mentiras se baseiam fortemente na verdade. Os questionamentos levantados por Harderman deixam o cidadão comum com cada vez mais dúvidas a respeito do Capitão, e com o auxílio de fotos e vídeos bem editados, rapidamente torcem a opinião pública contra o herói.
Então, fica aí a dica pra quem acha que essa coisa toda de fake news é novidade. Novidade talvez seja a velocidade com que as redes sociais difundem, claro. Enfim, nessa época sem YouTube e zapzap, TV e jornais foram os veículos utilizados.
No clímax do plano, Steve é atraído para um combate transmitido ao vivo, onde um capanga é morto. A partir daí, ele passa a ser fugitivo, perseguido pela polícia, por seus amigos da Shield e dos Vingadores inclusive. Ao seu lado, permanece o Falcão, estreando as suas asas “made in Wakanda”. E, surpresa!, os X-Men!
Também como parte da conspiração, um novo personagem é posicionado como “o novo herói da América”. Apesar do uniforme horroroso e do zero carisma, Rocha Lunar rapidamente cai nas graças da opinião pública, enquanto persegue Capitão e Falcão para levá-los a justiça.
Aqui, entretanto, é “O” Rocha Lunar. A adoravelmente maquiavélica dra Karla Sofen, “A” Rocha Lunar que conhecemos, famosa como um dos pilares dos Thunderbolts, roubou seus poderes deste cara, quando era sua psicóloga na prisão.
E com isso já temos três psicólogos/psiquiatras vilões citados neste blog – Karla Sofen, Bart Hamilton e dr. Faustus.
Provavelmente isso diz alguma coisa sobre a minha saúde mental.
A trama segue com uma ou outra surpresa, e é interessante ver o papel importante que os mutantes jogam na história: o Professor Xavier resolve algumas paradas e salva todo mundo uma ou duas vezes, padrão R2D2, e a dupla Capitão e Falcão toma uma surra inquestionável do Banshee – o gritador irlandês que mais tarde entraria nos X-Men.
No combate final, após derrotar Rocha Lunar e revelar a verdade sobre Harderman, o Capitão persegue o líder maior da conspiração toda, o n. 01 do Império Secreto, que estranhamente foge pra dentro da Casa Branca. Desmascarado, a real identidade do n. 01 espanta Steve, pois ele é um político importante – não fica claro qual é o cargo, se ele é o Presidente, se é um ministro, mas o recado está dado.
O impacto sobre o Capitão é devastador. Confrontado com a revelação de que justo as instituições que ele deveria defender e respeitar estão corrompidas, ele decide abandonar o uniforme bandeiroso e a carreira de herói.
O diálogo com a crise política norte-americana desta época é óbvio, principalmente com o escândalo de Watergate, que provocaria a renúncia do Presidente Richard Nixon em 1974. Nesse sentido, vemos aqui os gibis reagindo, em tempo real, ao que acontecia no noticiário.
AXÉ!
PS. Esses meados do anos 70 também carregavam o peso da Guerra do Vietnam, onde parcelas crescentes da opinião pública norte-americana se posicionavam contrárias a uma guerra que os EUA estavam perdendo. A situação do Capitão América, enquanto personificação do “sonho americano de liberdade” não devia mesmo estar nada fácil, como podemos ver na página abaixo, que está nos comics originais mas não foi publicada nos gibis da Abril na época. Porém, é inescapável mencioná-la – pois esta cena demonstra toda a intensidade da crise existencial que Steve – ou a “América” enfrentava…Um recado nada trivial que Englehart estava desenvolvendo, ao longo de todo esse arco de histórias.
PS2. Steve abandona então o traje bandeiroso, e se torna um novo herói: o Nômade. Aliás, né, com esse nome, passou recibo da crise existencial, mais uma vez – “eu não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum” como cantariam depois os Titãs!
PS3. O pessoal da Abril na época resolveu simplesmente ignorar, pulando as histórias do Nômade – ufa, obrigado! – direto para um arco adiante em que Steve já tinha voltado a vestir a bandeira. De modo que o Nômade, para mim, sempre será o subestimado e injustiçado Jack Monroe.
PS4. Não se recrimine se você também lembrou do Bono quando leu “gritador irlandês” lá em cima.
Capitão América. “O Fim de um Herói”
Capitão América, números 37 a 40. Ed. Abril, junho a setembro de 1982.
Publicação original: “When a Legend Dies.” Captain America and Falcon, #169 a #176, e #179. Marvel, 1973 e 1974.