Homem-Aranha. “Maré de Azar”.

por Tom deFalco, Peter David, David Michelinie, História;
Ron Frenz, Rick Buckler, Mike Harris, Mark Beachum, Mike Zeck, Dwayne Turner, Rick Leonardi, Desenhos;
Joe Rubinstein, Brett Breeding, Kyle Baker,Bob McLeod, Vince Coletta, Arte-final

“Eu só posso ter nascido numa sexta-feira 13”

Peter Parker

Eu peguei esse gibizão pra reler sem maiores pretensões. É um “superalmanaque” com 260 páginas de Aranha, coisa que na época era necessária porque o amigão da vizinhança tinha muitos títulos mensais nos EUA, então pra não atrasar a cronologia de vez em quando saía algum “almanaque” ou “superalmanaque” pra colocar o papo em dia.

Minha única lembrança real era de que nesta edição o Dentes de Sabre levava uma surra inesquecível da Gata Negra, e terminava o arco internado numa UTI.

Estranho não é?

Bom, é difícil para qualquer um de nós acessar essa memória hoje em dia, mas o hoje temido mutante inimigo predileto do Wolverine foi por muito tempo apenas um matador de aluguel. Criado pelos jovenzinhos Claremont & Byrne para ser inimigo do Punho de Ferro nos anos 70, numa baita aventura publicada aqui em Heróis da TV 20 – quando eu achar a caixa onde ela está soterrada trago a resenha aqui. E é este Dentes de Sabre que apanha da Felicia Hardy e vai parar na UTI – ou seja, acho que o fator de cura tava com defeito. Apenas 2 ou 3 anos depois é que ele seria estabelecido como vilão dos X-Men.

Tio Chris era generoso com seus personagens dos primeiros anos de Marvel, e reaproveitou vários deles. Além do Dentes de Sabre, criado pro Punho de Ferro, temos por exemplo Rapina, criada como vilã pra Miss Marvel e depois promovida a princesa dos Shiars; e Samurai de Prata, que ancora uma história da Viúva Negra em Marvel Team-Up e mais tarde é reposicionado como um importante Yashida.

A própria Carol Danvers, após ser chutada dos Vingadores, foi em vários sentidos “recriada” por Chris por meio de sua complicadíssima “relação” com Vampira e os X-Men. E a Capitã Marvel dos cinemas tem muito da Binária, na minha modesta opinião.


Mas, apesar de não lembrar do que mais estaria rolando nesta edição dedicada ao Aranha, me surpreendi. Não com a trama central em si, envolvendo Duende Macabro, o Rosa e o Estrangeiro, naquele longo e interminável arco de Tom deFalco que, apesar de tudo, nos daria alguns clássicos como a aventura do Aranha em Berlim Oriental. O que me cativou, nesta releitura de hoje, foi a parte “humana” da trama.

Parece Melrose Place. Ou algo como “O Segundo Ano do Resto de Nossas Vidas”.

Parker está mais loser do que nunca. Após tantos anos usando as fotos como bico pra sustentar seus estudos como jovem cientista, agora ele não tem mais nada, abandonou o doutorado já há algum tempo. E as fotos do Aranha não fazem mais tanto sucesso em um Clarim Diário onde J.J. Jameson não manda mais, pois embora Robbie Robertson tenha assumido o posto de novo editor-chefe, ele teve que deixar a editoria de Cidades: e a nova responsável pelas páginas policiais do Clarim não tá nem aí pro Aranha.

Mary Jane retornara recentemente de seus anos como modelo internacional, e embora ainda tenha seus jobs, está nitidamente em final de carreira. Depressiva no olhar e nas falas, acho que que Ron Frenz a desenha exageradamente magra, e na minha cabeça pelo menos fica implícito que ela inclusive enfrentava algum transtorno alimentar. E se mostra, o tempo todo, relutante em voltar a ser parte da vida do Parker – eles aqui são apenas amigos, embora ela não consiga lidar bem com os ciúmes que sente da Gata Negra, e nem Parker consiga fingir que a perdoou por ter sido abandonado anos antes.

Flash Thompson está também numa crise pessoal profunda. Seu casamento com a vietnamita Sha Shan está em crise, ele sempre totalmente alterado como se fosse alcoólico ou algo assim. E ainda está sendo “usado” como amante por Betty Brant, cujo casamento com Ned Leeds já ficou meio de fachada há um bom tempo.

Ned Leeds, neste momento, divide com Roderick Kingsley e Lance Bannon as suspeitas a respeito de quem seria o Duende Macabro. Não vou dar spoiler, mas esse suspense se resolve apenas em Berlim Oriental, tempos depois – e vai ser novamente reesclarecido anos depois, numa outra história.

O Aranha nestas histórias veste um uniforme preto, mas de pano. O simbionte já tinha se revelado um problema, e nesses dias estava preso numa gaiola especial no Edifício Baxter (ou no Four Freedoms Plaza, já não tenho certeza). Apenas um pouco adiante ele conseguiria fugir e se tornar Venom.

Enquanto do lado Parker a trama de novela das oito é intensa, do lado Aranha não acontece lá grandes coisas, apenas o desenvolvimento do arco com Rosa e Duende Macabro.


Nas histórias que vêm da revista “Web of Spider-Man”, escritas por David Michelinie, a ação é conduzida por alguns vilões do tipo descartáveis: Chance e Raposa Negra. Ah sim, e tem todo um drama por conta do caderninho de ouro do Beyonder.


Neste Superalmanaque dedicado ao Aranha, além das histórias de Tom deFalco e David Michelinie, há um arco escrito por um novato Peter David, que se tornaria um dos grandes em breve, primeiro escrevendo o Aranha, depois uma longa e redefinidora fase do Hulk, e mais tarde belas histórias com Madrox e seu X-Factor.

Temos aqui a hilariante premissa de que mesmo o normalmente azarado Parker está passando por uma maré de azar inexplicável. Então Peter resolve fazer um experimento, e após perder 179 vezes no cara-ou-coroa, começa a desconfiar que seus amassos com uma certa Gata podem ter lhe passado algo contagioso. E aí, muitos anos antes de Tom Holland e Benedict Cumberbatch, o Aranha vai ao santuário do Dr. Stephen para pedir um favor: uma “sessão de descarrego”.

Enquanto isso, um Dentes de Sabre entediado procura o Estrangeiro para tentar arrumar um contrato, mas é esnobado. Para mostrar seu valor, resolve então caçar a Gata Negra, que tinha acabado de roubar alguns itens valiosos do cofre do Estrangeiro – entre eles, um par de sapatos que pertenceram a Jimmy Hoffa, e um certo caderninho de ouro puro, recém-adquirido.

Dentes de Sabre encontra a Gata Negra bem na hora em que esta rolando uma DR com o Aranha – que afinal tem dúvidas se a “maré de azar” é um feitiço vingativo intencional ou apenas uma DST acidental. Empolgado, Dentes então passa a caçar o Aranha – afinal ele seria uma presa ainda melhor para lustrar seu currículo.

Porém, quando Dentes finalmente fareja o rastro do Aranha até o apartamento do Parker, ele está enroscado numa festa surpresa que Mary Jane preparou – e com a casa cheia de convidados, Peter entra em pânico, pois um assassino carniceiro está prestes a entrar pela sua janela, e para defender seus amigos ele terá que se revelar como Homem-Aranha na frente de todos.

É então que Peter é salvo em mais de um sentido quando chega a Gata Negra. Ela assume uma luta que Peter não poderia entrar sem se expor, e é justamente aí que ela – surpreendente e inexplicavelmente – aplica uma surra doutrinadora no Dentes de Sabre, que vai parar no hospital.

Certamente, um dia para ser apagado do cânone de Victor Creed.

Axé!

PS: Como já falei lá em cima, a melhor coisa dessa fase do Aranha é a história em Berlim Oriental, revistas adiante. Quando encontrar a respectiva caixa, escrevo algo a respeito.

PS1: Em paralelo à trama que coloca Dentes de Sabre no caminho do Aranha e da Gata, Peter David escreve uma historia bem barra pesada, sobre um menino que é espancado pelo pai. Os professores do colégio denunciam a situação para o que imagino ser o equivalente ao Conselho Tutelar de lá. Para escapar do “aborrecimento” a família resolve se mudar e assim alterar o distrito escolar do garoto.

O pai violento é um cientista fracassado, tentando construir uma arma de raios na “área de serviço” do apartamento. Nesse contexto de encaixotamento da mudança temperado por visitas fiscalizadoras do “conselho tutelar”, o menino Alex acaba derrubando os maquinários do pai. Tudo explode, aí ele vai apanhar mais diversas vezes, mas algo começa a se desenvolver dentro dele.

A partir daí, a coisa vai de 0 a 100 muito rápido, e numa vibe que considero meio pesada para uma história do Aranha. Se bem que esse mesmo Peter David tinha escrito poucas edições antes a também pesada porém brilhante “morte de Jean deWolff”.

Certo dia, quando o pai vai espancar mais uma vez o menino, o medo dispara os seus poderes, carbonizando o agressor. O guri foge, e passa o dia e a noite rodando no metrô. É abordado por um tiozão gente boa, que lhe oferece ajuda, apenas para se revelar um pedófilo páginas adiante. Ao tentar abusar do garoto, também é carbonizado.

Alex ainda explodiria um carro da polícia, sendo a partir daí perseguido como “mutante”, por agentes da Shield e “mandroids”. O Aranha, imaginando também que Alex é um mutante que recém ligou seus poderes, sabe que o menino está apenas com medo e desnorteado, embora seja perigosíssimo, e tenta protegê-lo, se colocando entre ele e os caras da Shield.

A cena final, no topo do icônico prédio “Flat Iron”, é cruel.

PS2: Peter David anos depois tentaria amenizar, e Alex aparece vivo numa história do Hulk. “Eram só tranquilizantes”, bla bla bla. No way, não foi isso que Mike Zeck desenhou aí em cima.

PS3: Nesta edição também tem um arco de Tom DeFalco envolvendo Silver Sable, Haloween, e o Sexteto Sinistro – sendo que aqui eles estão apenas em cinco, então se apresentam como Sindicato Sinistro. Mas, exceção feita a uma cena em que Roderick Kingsley aparece no seu ateliê segurando uma bomba-abóbora, não vi nada de interessante acontecendo.

PS4: a história anterior onde Peter pega o “caderninho de ouro” é um dos meus inúmeros momentos preferidos do Rei do Crime. Mais um post que preciso fazer, assim que achar a caixa respectiva etc etc vocês já sabem.

Homem-Aranha. “Maré de Azar”.

Tom deFalco, História; Ron Frenz, Rick Leonardi Desenhos; Joe Rubinstein, Brett Breeding, Vince Coletta, Arte-final
David Michelinie, História; Mike Harris, Desenhos; Kyle Baker, Arte-final
Peter David, História; Rick Buckler, Mark Beachum, Mike Zeck, Dwayne Turner, Desenhos; Bob McLeod, Joe Rubinstein, Arte-final

Superalmanaque Marvel, n. 2. Abril Jovem, 1990.
(Amazing Spider-Man #275-276, 279-281; Web of Spider-Man, #14-15; Peter Parker, the Spetacular Spider-Man, #115-119, Marvel, 1986)

Published by zehap

a esta altura do campeonato...

2 thoughts on “Homem-Aranha. “Maré de Azar”.

  1. esse momento do dentes realmente é constrangedor. Se pelo menos a gata estivesse com aquele poder de azar que ela adquiriu através do Rei do crime… aliás, apesar de dizerem que ela tinha um poder “latente”, o Rei dispunha de uma equipe empenhada em dar poderes. Ora, eu me perguntei na época, por que o Rei não arrumava algum poder qualquer para ele? Rsrs

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    1. a Gata aqui estava com os poderes de azar em “curto”, justamente devido a “sessão de descarrego” aplicada no Aranha pelo Dr. Estranho. E quanto ao laboratório do Rei, acho que você tem um boa questão rsrs. O Conde Nefária, por exemplo, foi mais esperto e aplicou todos os poderes que pôde em si mesmo

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