Por Danny Fingeroth e Tom deFalco, História; Mike Harris e Ron Frenz, Desenhos; Mike Zeck, Bob Layton, Jim Mooney e Joe Rubinstein, Arte-Final
“Pode haver caos… pânico… e anarquia se as forças federais demorarem a ser mobilizadas. Esta é a minha cidade, a minha economia! Não quero vê-las ameaçadas.”
Wilson Fisk
Logo após a “Secret Wars” original, o todo-poderoso ser cósmico chamado Beyonder resolveu passar uma temporada na Terra, entre heróis, vilões e humanos comuns, para “conhecer” melhor as coisas, e assim superar seu “vazio existencial”.
Busco o entendimento. Busco a experiência – dizia.
Nesses dias, habitando um corpo construído à imagem e semelhança do Capitão América, o ser humano mais perfeito que conhecera, o Beyonder criou muita confusão, viveu várias desventuras e causou alguns desastres.
E pelo menos uma história despretensiosa, porém genial e inesquecível, que relembro aqui agora.
Conversando com Luke Cage, a entidade cósmica pergunta: “O que move o mundo?”.
Luke responde: “Dinheiro, bufunfa, ouro!!”
“Incompletitude resulta em desejo. Desejo pode ser saciado, mas alguém deve pagar. Dinheiro é para pagar. Dinheiro substitui o ouro, do qual não há o bastante. Eu compreendo.”
E, com essas palavras, Beyonder transmuta um prédio inteiro em ouro. Cada folha de papel, cada caneta, cada mesa, cada porta, cada parede, cada pilastra…
Centenas de toneladas de ouro puro. O prédio colapsa, e desmorona.
O Homem-Aranha não tem tempo para pensar ou tentar entender o que está acontecendo – há pessoas presas dentro das ruínas douradas do prédio. Por sorte, o evento aconteceu a altas horas da noite, então não havia centenas de vítimas.
Ainda assim, há muitas pessoas presas, feridas, ou mortas nos escombros.
Enquanto isso, no meio da madrugada, o homem mais poderoso de Nova Iorque liga para o homem mais poderoso dos Estados Unidos.
Wilson Fisk telefona para a Casa Branca.
Nessa que é uma das minhas cenas preferidas com o Rei, e a razão de aqui escrever sobre esta aventura, Fisk é avisado pelos seus homens nas ruas do evento inacreditável.
Saca de uma calculadora, e constata o tamanho gigantesco da ameaça: se centenas de toneladas de ouro entrassem no mercado, o valor do ouro desapareceria.
E, com ele, desapareceriam também estoques de riqueza de países inteiros. O desastre econômico seria apocalíptico.
É por isso que ele telefona para a Casa Branca.
“Oh meu Deus, como assim Fisk tem o número do Presidente dos Estados Unidos??”
Ora, é CLARO que ele tem esse número. E certamente seu caderninho tem outros números poderosíssimos e valiosos.
Enfim.
Fisk liga para a Casa Branca. Relata o que aconteceu. Avisa que seus ourives confirmaram que é realmente ouro puro.
Fisk propõe então um favor; uma deferência; uma cortesia; à Casa Branca.
Seus capangas chegarão lá imediatamente. Isolarão o perímetro. Expulsarão quaisquer curiosos. Sua organização garantirá preciosos minutos, necessários para que as forças federais, exército, CIA etc consigam chegar ao local, e assumir a operação a partir daí.
O segredo estará mantido, a anarquia será evitada, e a economia será salva.
O que o Rei pede em troca?
Nada. Ou quase nada. Apenas o sentimento de ter servido o país basta. E algumas máquinas de escrever, alguns poucos quilos de ouro, como ajuda de custo para bancar a operação que, afinal, envolverá dezenas de capangas e viaturas e equipamentos.
Pouco antes do amanhecer, com a chegada das forças federais, os homens de Fisk se retiram da operação com o dever cumprido. Todo o quarteirão isolado. Todos os possíveis ângulos de visão tomados e protegidos.
De manhã, não há nada para a imprensa a não ser teorias conspiratórias sobre ataques alienígenas ou terroristas. E dezenas de caminhões do exército saindo carregados com containers selados, repletos de escombros e destroços de ouro puro.
Que são levados a alguns navios cargueiros. Que, escoltados pela marinha, navegam até um setor particularmente profundo do oceano, onde então são lançados os containers com centenas de toneladas de ouro rumo a inacessíveis profundidades abissais.
O mundo continua um lugar seguro para o capitalismo liberal.
Graças a Wilson Fisk.
Axé!!
PS: Na história seguinte, Tom deFalco tenta limpar um pouco a barra do governo e apresentar um Fisk menos genial e mais ganancioso, ao contar como o Rei sequestra um desses navios para pegar mais algumas toneladas de ouro.
O que, convenhamos, não faz o menor sentido, uma vez que Fisk ficou sozinho com o prédio INTEIRO a sua disposição antes dos federais chegarem. Realizar uma complexa e desnecessária operação pirata em alto-mar é bastante contraditório frente ao comportamento geopolítico preciso que o Rei demonstra na primeira história.
PPS: Revoltado por ver a CIA trabalhando junto com os homens do Rei, e ainda pagá-lo com as máquinas de escrever, Peter grita: “Também vou levar o meu!” e leva pra casa um bloquinho de post-it de ouro. Sério. Bem, podia ter levado, sei lá, uma lata de lixo pelo menos né.